Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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O Papel das Potências Regionais Emergentes No Sistema Global

Por Elton Gomes dos Reis*

potencias emergentes e potencias centrais

A segunda metade dos anos 1980 testemunhou a redefinição do panorama geoestratégico internacional ensejada pelo desmantelamento do bloco soviético e do fim do conflito bipolar.  Esse mesmo período é marcado pelo inicio da recuperação da crise econômica pela qual passavam os países ocidentais que havia sido deflagrada na década anterior em consequência do choque do petróleo de 1973. O próprio perfil da economia mundial começou a se redefinir nessa mesma época em função do aprofundamento interdependência econômica que gerou os fluxos integrados de capital e investimento em escala mundial (Chesnais, 1996 ). Todos esses processos ganharam maior sentido e propriedade mediante a revolução de tempo e espaço gerada pelo desenvolvimento da moderna tecnologia de informação e pela comunicação em tempo real.

Nessa ordem internacional em transformação o papel desempenhado pelas regiões e pelas chamadas potências regionais na política global constitui-se em um dos elementos mais representativos do estabelecimento de um cenário simultaneamente unipolar e caracterizado pela criação de um mundo multirregional. O estabelecimento dos Estados unidos enquanto única grande potencia global em termos securitários contrasta com a emergência de outra unipolaridade de cunho regional que buscam construir coalizões para contrabalancear a ação desse superpoder (T.V. Paul,2012; Brooks; Wohlfort, 1999:30). Diante desse quadro “unimultipolar” (Huntington, 1999) os poderes regionais buscam realizar um conjunto de iniciativas destinadas a aumentar as suas capacidades em meio a hierarquia internacional configurada após a guerra fria.

A perspectiva analítica delineada pela teoria realista dos ciclos hegemônicos e da transição de poder (Kluger e Organski  1989, 2000) enfatiza que a hierarquia de poder internacional (dividida em grandes, medias e pequenas potências) estabelecida com base na relação assimétrica de recursos políticos e econômicos, determinando uma relação de poder e subordinação é imprescindível para a efetiva compreensão da ordem vigente no sistema internacional hodierno. De modo semelhante, abordagens mais contemporâneas, tais como a teoria dos complexos de segurança regionalismo (Buzan, 2002) e as teorias de economia política internacional  (Gilpin, 2002) entendem que o papel exercido pelos poderes regionais em oposição à superpotência e as potências com capacidade de interferir em matérias de natureza global corresponde a um elemento crucial para seu modelo analítico.

Na década passada o crescente envolvimento de Estados Nacionais de perfil semelhante que assumiram uma posição de hegemonia, ou de preponderância regional despertou um vivo interesse por parte dos analistas de política externa, economistas políticos e outros estudiosos das relações internacionais. Esse conceito é fruto de um profícuo debate acadêmico desenvolvido a partir da constatação do crescente ganho de importância desse tipo de ator político no plano internacional contemporâneo.

A influente interpretação proposta por Daniel Flemes (2007) apresenta um padrão que permite a identificação e classificação de potências regionais. O modelo concebido pelo autor estabelece quatro elementos pivotais na tipificação desse tipo de Estado: a) formulação de uma reivindicação de liderança regional; b) posse dos recursos de poder necessários (materiais e ideacionais); c) emprego dos instrumentos de política externa e d) aceitação da liderança por terceiros Estados .  A identificação dos recursos de poder e dos instrumentos de política externa empregados pelos poderes regionais desenvolvida pelo trabalho de Flemes dá conta da existência de recursos de caráter material e ideacional que são empregados complementarmente pelas potências médias para o atingimento de suas metas no cenário internacional.

Os chamados poderes regionais não são comparáveis as grandes potências em termos de recursos de poder material que se traduzem nos meios de projeção de força militar como ultima ratio das relações internacionais. Todavia, as potências regionais apresentam frequentemente preponderância econômica na região em que são líderes e dispõe meios suficientes para superar os outros atores da região em termos de hard power. A despeito disso a política externa dos países desse perfil é caracterizada pelo emprego alternado de coerção e de convencimento que se adequa a construção contextual e factual na qual desenvolvem suas ações. Nos seus aspectos mais fundamentais a capacidade de projeção de força desses países tende a ser muito limitada, sobretudo se comparada à superpotência global (EUA) e com as grandes potências. Contudo três elementos correspondem a fatores que multiplicam as capacidades das potências médias no mundo globalizado, permitindo-lhes almejar um posto mais elevado na hierarquia internacional: 1) a liderança regional, vista como plataforma para a aquisição de um status mais elevado na política internacional; 2) a política econômica internacional e de comércio exterior desses países emergentes vistos como novas forças relevantes para os fluxos integrados do mercado 3) a sua atuação no âmbito das organizações internacionais que corresponde a uma maneira de realizar softbalancing contra os atores mais empoderados do sistema internacional.

            Em estudo mais recente Flames (2010) realiza uma grande sistematização das contribuições teóricas ao estudo de poderes regionais e a partir dela estabelece um conjunto de elementos que caracterizam as potências regionais:

  • São parte de uma região que é geograficamente, economicamente e político-ideacionalmente delimitada;
  • Articulam a pretensão de chegar a posição de liderança em uma região;
  • Influenciam a construção de uma delimitação geopolítica e político-ideacional de uma região;
  • Apresentam os recursos materiais, organizacionais e ideacionais para projetar poder;
  • São atores política, econômica e culturalmente interconectados dentro de suas regiões;
  • Possuem grande relevância em questões regionais;
  • Exercem sua influência através de mecanismos de governança regional;
  • Definem a agenda de segurança regional de modo significativo;
  • São reconhecidos pelos atores da região como o Estado líder, ou ao menos respeitados pelos outros Estados dentro e fora da região;
  • São integrados em fóruns interregionais, globais e instituições nas quais atuam, ao menos de modo rudimentar, como representante dos interesses regionais

Essa categoria (potências regionais) inclui países como Brasil, Egito, Índia, Irã, Iraque, Israel, Nigéria, Paquistão, Arábia Saudita, África do Sul e Turquia. O maior protagonismo desses atores na economia mundial e na governança global tem sido discutido pela literatura, empregando várias categorias analíticas diferentes. Apesar da falta de consenso no que diz respeito aos conceitos as apreciações do fenômeno tem em comum a identificação da ampliação da importância das regiões e dos poderes regionais em uma atual, ou futura  ordem multipolar.

As potências regionais colocam em prática uma estratégia global que tem como base a consolidação de seus subsistemas de poder regional, buscando ascender adentro da presente ordem internacional. Dentro dessa lógica de atuação, a liderança regional é exercida de acordo com a construção contextual e factual em que esses atores emergentes estão inseridos, variando de acordo com o perfil da “vizinhança” e dos legados históricos que construíram as preferências de política externa dos atores políticos  desse tipo.

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* Bacharel em Ciências Sociais (UFPE), Mestre e Doutor em Ciência Política (UFPE). Atualmente é professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: análise de política externa, política externa brasileira, integração regional e organizações políticas internacionais.

Referências

BROOKS, Stephen G.; WOHLFORTH, William C. Hard times for soft balancing. International security, v. 30, n. 1, p. 72-108, 2005.

BUZAN, Barry. South Asia moving towards transformation: emergence of India as a great power. International Studies, v. 39, n. 1, p. 1-24, 2002.

CHESNAIS, F. A mundialização do Capital”, Rio de Janeiro, Xamã,1996

FLEMES, Daniel (Ed.). Regional Leadership in the Global System: Ideas, Interests and Strategies of Regional Powers. Ashgate Publishing, Ltd., 2010.

______________. Conceptualising regional power in international relations: Lessons from the South African case. 2007.

GILPIN, Robert.A Economia Política das Relações Internacionais, Brasília: Editora UNB, 2002.

HUNTINGTON, Samuel P. La superpotencia solitaria. Política Exterior, p. 39-53, 1999.

KUGLER, Jacek; ORGANSKI, Abramo FK.  The Power Transition Research Program Assesing Theoretical and Empirical Advances” in Handbook of War Studies II Magnus Midlarski and Ann Arbor (Eds), University of Michigan, 171-194, 2000.

ORGANSKI, Abramo F.K; KLUGER, Jacek.  The war Ledger. Chigago, University of Chicago Press, 1980

PAUL, Thazha Varkey. International relations theory and regional transformation. Cambridge University Press, 2012.

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