Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Relações Internacionais: teorias para quê?

Por Israel Roberto Barnabé*

La pensadora

Teorias para quê? À primeira vista, a pergunta parece simplória, desnecessária, gerando, aparentemente, respostas óbvias e certeiras. Entretanto, esta indagação tem acompanhado as pesquisas em diversas áreas das Ciências Humanas e, mais especificamente, os estudos dos fenômenos internacionais. Conforme afirma Bedin (2000, p.62), uma teoria das relações internacionais é “uma visão, uma interpretação, uma perspectiva dos fenômenos internacionais ou mundiais, amparada em algum método, cuja pretensão é explicar e dar sentido para os fatos que estão se desenrolando no cenário internacional.”

De um modo geral, podemos demonstrar a importância da teoria a partir de três pontos, a saber: o necessário ordenamento racional da realidade, a análise do objeto para além da simples descrição e a possibilidade de análises prospectivas.

O ordenamento racional da realidade remonta ao período clássico da Grécia Antiga, quando os primeiros filósofos iniciaram discussões que, ao negarem o real como algo previamente determinado pelos deuses ou pela ordem natural das coisas, ultrapassaram o senso comum e desnudaram inquietações humanas sobre a existência e sobre os fenômenos que caracterizavam e fundavam a vida social da época. A negação que deu forma ao pensamento filosófico clássico criticou dogmas e sentidos que caracterizam o senso comum, duvidou do real e ousou buscar respostas racionais (apesar de sua raiz abstrata) para os questionamentos e para as incertezas humanas acerca de sua origem, de seu propósito no planeta e de seu destino.

Nota-se que uma análise da realidade para além do aparentemente verdadeiro só é possível a partir da construção de teorias que analisam e interrogam o objeto investigado. Uma teoria é, portanto, uma visão de mundo racionalmente construída e seu propósito inicial é possibilitar um entendimento científico sobre os fenômenos pesquisados. Cada teoria apresenta um conjunto de conceitos que torna possível a interpretação da realidade dentro de determinada visão de mundo, além de uma metodologia própria capaz de operacionalizar as investigações.

Em decorrência de seu objetivo inicial, a teoria possibilita uma investigação que ultrapassa a mera descrição dos fenômenos. Para a ciência, não basta apenas apontar o que sucede, mas também, e principalmente, por que sucede, de que modo e para qual propósito. Amparada em uma teoria, a pesquisa ganha status científico e colabora para o avanço do conhecimento. Entretanto, se por um lado a teoria faz com que o investigador avance para além da descrição, em outro extremo pesquisas teóricas, sem um pé na realidade, podem levar o pesquisador a elucubrações, divagações que pouco colaboram para o avanço do conhecimento. Em uma palavra, pesquisas sem uma base teórica podem levar à superficialidade da descrição, pesquisas excessivamente teóricas tendem ao vazio da abstração pura. Conforme afirma Aron (1980, p 325),

O estudo empírico das relações internacionais visa precisamente determinar a percepção histórica que orienta o comportamento dos atores coletivos, as decisões dos responsáveis por esse comportamento. A teoria põe em evidência a diversidade dos temas dos conflitos entre os atores coletivos e dos seus objetivos.

Embora não seja uma exigência nas pesquisas científicas, as análises prospectivas possibilitadas por estudos que conciliam adequadamente postura teórica e análise empírica completam o tripé proposto por este texto na discussão sobre a importância das teorias. No mundo contemporâneo, onde as mudanças alcançam velocidade e complexidade nunca antes vistas, é mister para a ciência poder apontar possíveis tendências, traçar cenários e levar luz a um futuro breve que se apresenta obscuro para os tomadores de decisão, para os diversos atores sociais que compõem hoje os cenários doméstico e internacional e para a humanidade de um modo geral. O futuro depende cada vez mais das decisões tomadas no presente e o acerto dessas decisões só pode ser garantido pelo trabalho de pesquisadores (estamos aqui nos restringindo ao âmbito das Ciências Humanas) conscientes de que uma postura teórica crítica é fundamental para o entendimento racional dos diversos fenômenos contemporâneos.

Evidentemente a escolha teórica tem implicações políticas. Isto por várias razões: a) o sujeito investigador não é neutro e sua escolha implica numa visão política de mundo, b) a explicação do real sempre será parcial porque, ao delimitar o objeto investigado, o sujeito investigador descarta uma série de fenômenos que não serão pesquisados, c) as teorias não são imparciais por estarem ligadas a valores e interesses e, por fim, d) a pretensão universal das teorias resvala em seus limites e nas críticas que recebem. Salientando esses limites, Merle (1981, p. 105) afirma que

a diversidade das abordagens (…) demonstra que os mesmos fenômenos devem forçosamente ser considerados sob uma luz diferente, em função do ângulo sob o qual estão observados. Mais do que isto, a perspectiva escolhida fará com que certos fatos surjam em plena luz, ao passo que outros permanecerão na sombra.

Entretanto, entendemos que, apesar dos limites apresentados às teorias das relações internacionais, limites esses estendidos às Ciências Humanas de um modo geral, descartá-las implicaria em deixar descoberto um objeto complexo que exige explicação científica.

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* Doutor em Ciências Sociais pela (Unicamp), Graduado em Ciências Sociais e Mestre em Sociologia pela Unesp Atua nas seguintes linhas: Processos de Integração Regional na América do Sul, Teoria das Relações Internacionais, Sociologia das Relações Internacionais. É membro do Regional Integration Research Group (Institute of Latin American Studies, Stockholm University). Líder do grupo de pesquisa Política Internacional e Processos de Integração, é Professor Adjunto IV do Departamento de Relações Internacionais e pesquisador do CEI/UFS e do NEPI/UFPE.

Referências

ARON, R. Estudos Políticos. Brasília: Universidade de Brasília, 1980.

BEDIN, G. A. “O Realismo Político e as Relações Internacionais: algumas reflexões sobre o paradigma tradicional das relações internacionais”. __________ Paradigmas das relações internacionais. Ijuí: Unijuí, 2000.

MERLE, M. Sociologia das Relações Internacionais. Brasília: Universidade de Brasília, 1981.

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