Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Estratégias de Operacionalização de Conceitos Teóricos

Por Augusto Teixeira Jr.*

guerra e paz portinari

Se pensarmos na evolução das Relações Internacionais veremos que conceitos teóricos são centrais na nossa compreensão estruturada do mundo. Entre estes, dicotomias teórico-conceituais possuem um local especial no campo. Por exemplo, em oposição à Paz, a Guerra – pensada através da teoria clausewitziana –representa a manifestação fática de um fenômeno apreensível à luz da razão e da História. Destarte a relevância de conceitos teóricos e dicotomias, se faz necessário indagar: como operacionalizar a ideia de guerra em termos empíricos? De uma forma geral, indo além do conceito Guerra, como classificar e mensurar conceitos teóricos abstratos? Como avaliar sua presença e efeito? Na prática, estas indagações nos remetem a um desafio comum nas Ciências Sociais: converter conceitos teóricos em operacionalizáveis.

Como apresentado na figura abaixo, uma estratégia neste sentido consiste em “quebrar” o conceito teórico em níveis (organizado a partir de variáveis nominais ou ordinais).

Figura 1. Five Levels of Intensity

augusto 1

Fonte: http://www.hiik.de/en/methodik/index.html.

No exemplo em tela, ao dividir o construto Guerra em “Níveis de Conflito”, a metodologia utilizada pelo Conflict Barometer torna possível traçar critérios objetivos que ajudam ao pesquisador afirmar quando o fenômeno em apreço (Guerra) está ou não em operação.

Apesar da relevância dos Estudos de Conflito na seara metodológica, poucas áreas das Ciências Sociais propuseram estratégias tão elegantes para operacionalizar conceitos teóricos como nos estudos do Poder Nacional. Como exemplo, apresentamos abaixo a equação de Cline[1] que através do raciocínio matemático visava pensar formas de quantificação do Poder.

Figura 2 Power Equations

augusto 2

Fonte: CHANG, Chin-Lung. “A Measure of National Power”. Conference Paper. The National University of Malaysia, Bangi. 2004.

Traduzir um conceito teórico numa equação matemática não é uma tarefa simples. Existem várias teorias sobre Poder, cada uma argumentando a favor de um conjunto específico de fatores, variáveis e caminhos causais que disputam a melhor explicação[2]. Contudo, a fórmula de Cline (1994) é ilustrativa do esforço de sintetizar na expressão Poder noções caras à disciplinas como a Geopolítica e a Geoestratégia tais como o Poder Real, Latente e Prestígio. Uma análise detida da equação de Poder de Cline permite observar a tentativa de combinar a manutenção da complexidade do conceito teórico ilustrada por um conjunto de variáveis mais simples. Dentre estas se destacam os fatores de massa crítica (território e população), força econômica, força militar, proposta estratégica e vontade nacional.

Apesar da clareza ilustrativa da fórmula de Cline, a sua equação peca em trazer em seus termos aspectos de difícil avaliação objetiva. Afinal, como operacionalizar “proposta estratégica” e “vontade nacional”? Como converter estes fatores em variáveis mensuráveis? Uma resposta criativa a essa indagação surgiu com o Project Correlates of War (COW), em particular com o Composite Indicator of National Capabilitie (CINC)[3]. Diante do desafio da mensuração, a metodologia utilizada no National Material Capabilities data set simplifica “Poder” através da ideia de Capacidades. Com isso, se lembrarmos dos termos da equação de Cline, o construto Capabilities do COW trabalha apenas com as dimensões mensuráveis e operacionalizáveis do conceito teórico de Poder. Na construção do índice CINC as seguintes variáveis são utilizadas: gastos militares, pessoal militar (contingente), consumo de energia, produção de ferro e aço, população urbana e produção total.

De forma conclusiva, podemos afirmar que em particular nas Relações Internacionais, a busca por maior rigor metodológico e qualidade das inferências leva o pesquisador a buscar mais evidências e de maior qualidade. Uma forma útil de fazê-lo consiste em converter os conceitos teórico em conceitos e variáveis operacionalizáveis, sejam elas qualitativas ou quantitativas. Desta forma, a pergunta “como saber que o fenômeno em apreço está em operação” torna-se passível de ser respondida pela introdução no desenho de pesquisa de variáveis aptas a apreender empiricamente as características e marcas do objeto estudado. Contudo, vale salientar que a conversão conceitual para operacionalidade reduz a riqueza do construto teórico do qual se parte e coloca o pesquisador diante de trade-offs metodológicos independente se a abordagem for qualitativa ou quantitativa. De forma a ilustrar esta ideia usando Cline e o COW, indaga-se: afinal, o que a variável “gastos militares” nos diz per si sem termos em mente a “proposta estratégica” do país analisado?

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* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente é professor Adjunto do Departamento de Relações Internacionais da UFPB. Líder do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Segurança Internacional (GEESI/UFPB /CNPq). Membro da Associação Brasileira de Estudos de Defesa.

[1] CLINE, Ray S. The Power of Nations in the 1990s: A Strategic AssessmentLanham,MDUniversity Press of America1994.

[2] BALDWIN, David A., “Power and International Relations”, in Handbook of International Relations. Disponível em: http://www.princeton.edu/~dbaldwin/selected%20articles/Baldwin%20(2012)%20 Power%20and%20International%20Relations.pdf

[3] Ao usar o data set favor citar: Singer, J. David, Stuart Bremer, and John Stuckey. (1972). “Capability Distribution, Uncertainty, and Major Power War, 1820-1965.” in Bruce Russett (ed) Peace, War, and Numbers, Beverly Hills: Sage, 19-48.

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