Publicação mensal sobre Relações Internacionais

Página inicial do VOX MAGISTER

A China e a sua modernização militar

Por Antonio Henrique Lucena Silva*

Парад_в_честь_70-летия_Великой_Победы_-_40

A ascensão chinesa tem gerado muitos questionamentos sobre as “pretensões” chinesas nesse momento de realinhamento do poder mundial. Na sua política externa e de defesa, a China tem apresentado mudanças importantes. Ela passou a caminhar com as “duas pernas” nas suas relações com o mundo exterior, priorizando os elementos multilaterais de política externa, bem como a construção unilateral de seus recursos econômicos, políticos e militares (BELLO & GREBREWOLD, 2010, p.216). Um dos elementos que causa maior preocupação entre os seus vizinhos é que a China investe uma grande quantidade de recursos na modernização das suas Forças Armadas desde o início dos anos 1990.

Além da defesa territorial do país e das suas fronteiras, a extensão do alcance estratégico de Pequim e o seu processo de modernização de defesa focalizavam também a consolidação da China como uma grande potência (BELLO & GREBREWOLD, 2010, p.219). As pretensões militares chinesas dependiam do acesso às armas russas e ao know-how, porém, os progressos no programa de modernização militar estavam conseguindo diminuir a dependência chinesa de fontes externas de armas e de tecnologia. A China está utilizando recursos consideráveis para transformar as suas Forças Armadas de autossuficientes em efetivos (manpower) para consolidar a autossuficiência em tecnologia. Devido ao crescimento da sua economia, o orçamento de defesa teve um aumento progressivo, possibilitando a aquisição de material militar moderno e de tecnologia de defesa. Gradualmente, as Forças Armadas da China foram se transformando numa força bem treinada, equipada e com contínua capacidade de projetar o seu poder para além das suas fronteiras.

Os chefes militares chineses perceberam que o país possuía uma série de desafios a médio e longo prazos para a sua segurança nacional. O Exército, a Força Aérea e a Marinha Popular de Libertação continuaram a escalada contra a ilha de Taiwan. Ao mesmo tempo, eles construíam uma estrutura defensiva capaz de impedir a intervenção dos EUA no estreito e na esfera de influência chinesa na região. Assim, a longo prazo, a China se considera uma rival estratégica dos EUA na influência e no poder sobre a região Ásia-Pacífico.

A China possui um dos mais antigos, maiores e diversificados complexos militares industriais do mundo em desenvolvimento. De acordo com Bitzinger et al (2014), no final dos anos 1990, a China possuía uma base industrial com 1000 empresas, dentre elas múltiplas fábricas, unidades de pesquisa, escolas, universidades e 200 institutos de pesquisa, que empregava 3 milhões de pessoas, incluindo 300 mil engenheiros e técnicos. Ainda de acordo com o autor, a China é um dos poucos países emergentes que conseguem produzir uma variada gama de equipamentos militares, como armas leves, caças, submarinos, armas nucleares e mísseis balísticos intercontinentais. Apesar das sérias dificuldades enfrentadas pelos chineses ao longo dos anos para desenvolver a sua BID, há um considerável progresso desde a última década, uma evidente melhoria qualitativa das novas armas e uma diminuição no tempo de pesquisa militar que geravam os produtos (idem, p.172).

Após o aumento de dois dígitos do seu PIB nos últimos anos, a China foi atingida pela crise de 2008 e sofreu uma pequena retração do seu crescimento. Devido à queda da demanda externa, principalmente dos EUA, o crescimento econômico do país apresentou uma redução de 9% em 2008. Em resposta, o governo adotou medidas fiscais e monetárias para ajustar o impacto provocado na economia nacional. No entanto, a desaceleração do crescimento não teve impacto direto nos gastos militares e na modernização das Forças Armadas (IISS, 2010, p.391). O programa quinquenal de 2006-2011 não fez menção específica aos custos da defesa. O foco do documento era destacar que o desenvolvimento demográfico, o meio ambiente, as questões rurais e os fundos alocados para o Exército Popular de Libertação seguiam em ritmo de crescimento.

china

Elaborado com base nos dados do SIPRI (2013).

Uma nova dinâmica de ameaça emergiu a partir de 2010, com o aumento significativo das tensões marítimas e territoriais entre a China, os países vizinhos e os Estados Unidos, anunciando um rebalanceamento estratégico na região Ásia-Pacífico e, em particular, no Leste Asiático. Os norte-americanos estão desenvolvendo uma nova doutrina de batalha ar-mar projetada para frustrar os esforços da China voltados para o cerceamento da estratégia militar dos EUA, principalmente a naval, através de uma presença de negação de área/anti-acesso. Com os conflitos entre a China e o Japão nas Ilhas de Diaoyu/Senkaku, no Mar Leste da China, e as disputas entre os países asiáticos pelas Ilhas Spratly, no Mar do Sul da China, a liderança chinesa tem insistido em que o EPL e a indústria de defesa venham a ter preparações com o embate militar e melhorarem compreensivamente a dissuasão e as capacidades de combate sob condições informatizadas, de forma a assegurar a soberania, a segurança e os interesses de desenvolvimento da China.

Os avanços dos chineses em sistemas e tecnologias têm sido respeitáveis, especialmente nos setores navais, nos caças de combate e nos veículos lançadores de satélite. Dennis Blasko (2013) reafirma que Pequim deve persistir no desenvolvimento de novas armas e de novas tecnologias de uma forma que não afete o principal objetivo do país, ou seja, o desenvolvimento econômico nacional. Enquanto novas armas e tecnologias tornam-se disponíveis, seja por via interna ou externa, elas são integradas à Força, que, em um tempo razoável, será um misto de vários tipos de armas com graus variados de sofisticação tecnológica. Percebe-se que existe uma interação entre tecnologia e tática e que os estrategistas chineses estão colocando mais esforço em incorporar tecnologias avançadas. O Exército Popular de Libertação está cada vez mais focado em operar, empregar, manter e sustentar as armas avançadas e os equipamentos introduzidos nas Forças. Através de importantes avanços desde o início dos anos 2000, os líderes militares chineses estão atentos aos obstáculos e aos desafios que permanecem à frente do longo processo de modernização. No entanto, parecem confiar que a sua indústria de defesa proverá as soluções necessárias.

———-

* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor de Relações Internacionais da Faculdade Damas da Instrução Cristã. Atua na área de Segurança Internacional, Estudos Estratégicos e Política Internacional. E-mail para contato: antoniohenriquels@gmail.com.

Referências

BELLO, Valeria; GEBREWOLD, Belachew (ed). A Global Security Triangle: European, African and Asian Interaction. Nova Iorque: Routledge, 2010.

BITZINGER, Richard; RASKA, Michael; LEAN, Collin Koh Swee & WENG, Kelvin Wong. Locating China´s Place in the Global Defense Economy. In: CHEUNG, Tai Ming (Ed.). Forging China´s Military Might: A New Framework for Assessing Innovation. Baltimore: John Hopkins University Press, 2014.

BLASKO, Dennis. ´Tecnology Determines Tactics: The Relationship between Technology and Doctrine in Chinese Military Thinking. In: CHEUNG, Tai Ming. China´s Emergence as a Defense Technological Power. Nova Iorque: Routledge, 2014. Kindle Edition.

LUCENA SILVA, Antonio Henrique. Globalização Militar e Ordem Militar Internacional: comparando as indústrias de defesa do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). 2015. 292f. Tese (Doutorado em Ciência Política) – Instituto de Estudos Estratégicos. Universidade Federal Fluminense, Niterói.

International Institute for Strategic Studies (IISS). The Military Balance 2010. Londres: Routledege, 2010.

——————————————————————————————————————————————————–

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *