Publicação mensal sobre Relações Internacionais

Página inicial do VOX MAGISTER

União Europeia: Agricultura em Crise?

Por Marcelo de Almeida Medeiros*

agriculture-eu

Desde os primórdios da integração europeia, a Política Agrícola Comum (PAC) tem se constituído em um dos principais esteios das políticas públicas concebidas por Bruxelas. Se no passado mais remoto ela chegou a representar dois terços das despesas do orçamento comunitário, a PAC ainda hoje é responsável por quase 40% das despesas deste orçamento.

Ora, esta situação não é percebida de forma homogênea pelos vinte e oito membros da União. Há aqueles que são favoráveis a uma maior liberalização do mercado e, consequentemente, uma diminuição dos instrumentos protecionistas; e há os que, por razões econômicas e também sociais, insistem em uma PAC robusta. No primeiro caso, pode-se apontar como exemplo o Reino Unido; no segundo, a França.

Na verdade, neste cenário, há que se considerar duas forças que tendem a modular a formulação da PAC.

Em primeiro lugar, trata-se de caracterizar a força derivada das negociações comerciais internacionais nas quais se encontra inserida a União Europeia (UE). Neste âmbito, tem sido cada vez maior a pressão de Estados em desenvolvimento – no mais das vezes grandes exportadores de commodities agrícolas – para que os subsídios fornecidos pela PAC sejam diminuídos a fim de que haja uma contrapartida relativa aos produtos industrializados que eles importam da UE.

Em segundo lugar, há a força que brota de alguns cenários de Estados nacionais europeus, a qual resiste e se projeta como aquela dos segmentos que, caso haja decréscimo da PAC, serão diretamente afetados. A dificuldade de reconversão destes atores gera não somente uma crise de caráter econômico, mas igualmente uma de fundo social. Isto é, o movimento migratório do campo na direção das cidades contribuindo, por um lado, para o crescente inchaço das grandes metrópoles e suas periferias e, por outro, para a desertificação populacional de rincões mais interioranos.

A reificação da crise agrícola europeia pode ser vislumbrada hoje na França. Há uma forte mobilização do mundo rural que pressiona o poder público para defender seus interesses tanto no interior das fronteiras hexagonais, quanto fora delas junto à Comissão Europeia, braço executivo da UE e, em grande parte, responsável pela implementação da PAC. O Primeiro Ministro Manuel Valls tem, internamente, adotado medidas nesse sentido e, externamente, tem pressionado Bruxelas tanto para agir na gestão da PAC, quanto para negociar com a Rússia a questão do embargo sobre a carne porcina comunitária. Obviamente, os extremismos, tanto de direita quanto de esquerda, tiram proveito dessa situação surgindo como defensores impávidos de um nacionalismo obsoleto que semeia o ódio e a discórdia entre os povos europeus.

Em um cenário político já complicado pela questão migratória – que até ameaça de extinção o Espaço Schengen – e pela eventualidade de um Brexit, a UE necessita unir suas forças para superar esse histórico problema do mundo rural europeu. A unidade na diversidade se impõe mais que nunca.

———-

* Doutor em Ciência Política (Institut d’Etudes Politiques de Grenoble) e Livre-Docente em Ciência Política pelo Institut d’Etudes Politiques de Paris – Sciences Po. É Professor Associado de Ciência Política do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Bolsista de Produtividade em Pesquisa – Nível 1D do CNPq, Líder do Núcleo de Estudos de Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI/UFPE), Co-Coordenador  da Área Temática Política Internacional da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e Co-Coordenador do Grupo de Trabalho Política Internacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS).

——————————————————————————————————————————————————–

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

One Comment

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *