Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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As Potências no Sistema Internacional – Parte 1

Por Júlio César Cossio Rodriguez*

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O conceito de potência é um dos mais utilizados na área de Relações Internacionais, mas isto não significa que seu uso seja consensual. Cada programa de investigação da área define os critérios para categorizar os atores internacionais principais, os estados, em relação ao seu potencial. Neste sentido, não é tarefa difícil identificar uma grande potência, seja levando em conta agregados de poder ou critérios minimalistas. Os principais autores realistas vão considerar, para definir o potencial de um estado, medidas no poder econômico, militar e político. Entretanto, mesmo dentre os realistas, não há consenso sobre quais são os critérios principais. Considerando os escritos de Hans Morgenthau, podem ser levados em conta os recursos não-operacionalizáveis, como por exemplo, território, recursos naturais e população. Já para Waltz (1979), o que define a potencialidade de um estado são suas capacidades materiais. Compõem tais capacidades o “tamanho da população e do território, dotação de recursos, capacidade econômica, força militar, estabilidade política e competência”. Recuperam-se, portanto, os recursos, mas insere a capacidade econômica, militar e política de forma operacional. A grande dificuldade desta forma de definir potencialidade reside em como mensurar a competência de um estado. Por outro lado, John Mearsheimer (2001) é mais restrito em sua definição e coloca como critérios fundamentais forças armadas convencionais, populações, PIB e armas estratégicas com capacidade de segundo ataque. Articula, portanto, medidas de poder latente (população e PIB) e de poder tangível (armas estratégicas). Pela ótica liberal, Robert Keohane, em 1969, hierarquiza os estados entre os mais poderosos, que podem definir ou modificar o sistema internacional, os que podem influenciar o sistema individualmente ou por meio de alianças e, por fim, os que não conseguem afetar o sistema. De toda forma, a preocupação central das teorias tradicionais das RI são os estados mais poderosos, que detêm mais poder e/ou podem afetar diretamente o sistema internacional.

Os estudos principais, então, centram-se nesses estados. Porém, poucos estados conseguem chegar ao nível das grandes potências segundo tais critérios, logo, restam todos os outros estados. Os estados com poder inferior ao das grandes potências são inseridos em diversas categorias. A variedade de critérios, portanto, aumenta e dificulta a tarefa do analista. Dentre as categorias principais figuram as de potência média (com suas variantes), de potência regional, de potências pivotais, potências emergentes e potências menores. De forma oposta ao que acontece no caso das grandes potências, os critérios destes conceitos são mais flexíveis e menos rígidos, pois uma potência média pode ao mesmo tempo ser regional, pivotal e emergente. Em coerência com Mearsheimer (2001), uma grande potência pode ser uma potência regional, mas em geral o critério definidor principal é possuir armas estratégicas com capacidade de segundo ataque, o que restringe a três atores contemporâneos: EUA, Rússia e China.

E os demais estados? A grande parte poderia ser inserida na categoria de potência média e outra parte na de potência menor ou pequena. Contudo, o que fazer quando um estado tem potencial muito superior a outro, mas está na mesma categoria? O caso do Brasil e de diversos países vizinhos é semelhante a este. O potencial brasileiro é muito superior ao de Venezuela, Colômbia e Argentina, entretanto, todos podem ser categorizados como potências médias, pois estão abaixo das grandes e acima das pequenas, como o Uruguai. A partir desta problemática é que categorias como potência regional e/ou emergente ganham simpatia de analistas, pois servem para diferenciar os atores médios. O problema, então, consiste em definir melhor a categoria de potências médias, criar hierarquias internas à categoria. Os critérios minimalistas dos realistas, como Mearsheimer, servem para eliminar as dúvidas com relação a quais são as grandes e critérios também mínimos podem ser utilizados para definir pequena potência. Restam, portanto, as dúvidas sobre os distintos papéis que podem ter os atores médios em função de seu potencial.

As tentativas de definir critérios sobre potências médias e sobre potências regionais produziram mais dificuldades para os analistas. Por exemplo, os critérios utilizados por Nolte (2010) são vastos demais e exigem o conhecimento de fatores materiais, potenciais, ideacionais e das relações com os vizinhos. Apesar destas dificuldades, não são todos os estados que se inserem nesta categoria, principalmente pelo critério de ter uma atuação que articule interesses regionais. Assim, podemos incluir o Brasil nesta categoria e eliminar todos os vizinhos sul-americanos. O mesmo pode ser realizado com África do Sul no sul do continente africano e com México na América Central. O principal problema desta categoria é que grandes potências podem ser também potências regionais, mas sem o cuidado dos realistas para definir que, uma vez sendo potência regional, adquire-se a possibilidade de tornar-se uma grande potência.

Esta postagem, enfim, pretende dar início a um debate sobre os conceitos de potência muito utilizados na nossa área, principalmente para avaliar suas opções estratégicas e prioridades de política externa. São notáveis as diferenças de preferências entre potências grandes, médias, pequenas e regionais, mas sem uma clareza na definição dos critérios que podem ser utilizados para definir a hierarquia entre os atores médios, não se perceberão estas diferenças, prejudicando assim a capacidade analítica. Na próxima postagem debaterei com mais ênfase os diferentes conceitos relacionados às potências médias.

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* Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia/Ciências Sociais e de Política Internacional Contemporânea na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Doutor em Ciência Política (Universidade de Lisboa), Mestre em Ciência Política (UFRGS) e Bacharel em Relações Internacionais (UFRGS). Pesquisador Associado do Centro Internacional de Estudos sobre Governo (CEGOV/UFRGS).

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