Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Por que estudar teoria dos jogos? Lições de Allison e Zelikow (1999).

Por Irene Rodrigues Gois*
Rodrigo Barros de Albuquerque**

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A teoria dos jogos (TJ) surgiu a partir da teoria da escolha racional e se desenvolveu em diversas áreas, como a economia, a ciência política e as relações internacionais, esta última sendo o principal enfoque deste texto. A TJ utiliza-se de modelos matemáticos que asseguram maior precisão analítica. Através desses modelos – o dilema do prisioneiro, o jogo do galinha e a batalha dos sexos, por exemplo -, busca-se contribuir para a análise estratégica dos eventos que envolvem barganha, antecipando as melhores ações em cada cenário possível. Dada a adoção da perspectiva racional, as decisões consequentes do emprego desses modelos baseiam-se na maximização de resultados por meios que proporcionem menores custos e maiores benefícios em cada ação realizada por um ator individual. Estes atores, por fim, são considerados pela teoria como jogadores inseridos em um cenário de interdependência estratégia, atuando segundo a lógica de ação e consequência com os demais jogadores, de modo que as ações desempenhadas por cada jogador sempre levam em consideração as ações dos demais.

Uma das suas aplicações mais conhecidas foi realizada por Allison e Zelikow (1999) na análise da crise dos mísseis em Cuba, em 1963. Os autores julgavam que a perspectiva racional pura era incapaz de explicar os problemas do mundo real devido ao seu excessivo reducionismo. Isso os levou a propor uma análise sequencial da crise dos mísseis através de três modelos em crescente nível de complexidade: o do ator racional, o do comportamento organizacional e o da política governamental. O primeiro, que gozava de muito prestígio na ciência política estadunidense à época da publicação da primeira edição do livro, enfatiza o Estado como ator unitário. Os demais modelos sugeridos, contudo, incorporam à análise a existência de múltiplos níveis estratégicos de barganha ocorrendo simultaneamente, com uma diversificação de atores que comprova a interdependência entre os atores de diferentes níveis. Logo, as ações dos Estados em questões de política externa não refletem uma unidade de análise, mas uma complexa teia de atores domésticos e externos que influenciam a formulação da política externa de um Estado.

Olhando para a crise, Allison e Zelikow consideram que o governo estadunidense, frente à descoberta da instalação dos mísseis em Cuba, tinha ao seu dispor as seguintes alternativas: 1) fazer pressões diplomáticas; 2) aproximar-se de Fidel Castro; 3) invadir Cuba; 4) promover um ataque aéreo e, a escolhida, 5) o bloqueio. As opções 1 e 5 seriam escolhas moderadas, não declarando um confronto direto, mas, ao mesmo tempo, tomando uma posição diante do contexto. A opção 2 geraria duas possíveis alternativas: A aceitação por Castro faria com que os EUA ganhassem um aliado e os mísseis fossem retirados, enquanto a recusa significaria mais um confronto com os soviéticos. As opções mais agressivas (3 e 4) resultariam em consequências graves, como a reivindicação soviética e um possível ataque nuclear. Todavia, todas as alternativas estavam sujeitas a um grave risco, pois caso a situação saísse do controle, o ataque nuclear era a resposta provável para ambos os Estados envolvidos.

O clássico exemplo da crise dos mísseis em Cuba apresenta jogos complexos, que envolvem diversas possibilidades de ação, resposta e custos e benefícios associados a cada jogada. Jogos desse tipo geram um custo muito alto para os jogadores envolvidos, preocupados em calcular os resultados de cada ação. Uma quadro analítico que permita ao jogador modelar o cenário com as possibilidades de ações e seus resultados é, portanto, uma ferramenta com grande potencial de redução de custos para os envolvidos em jogos que se repetem ao longo do tempo ou que duram mais do que uma única rodada.

A análise de jogos de estratégia empregada pela TJ se concretizou no campo das relações internacionais pelo seu emprego por líderes de Estados e demais envolvidos no processo de negociação de acordos e resolução de conflitos. Os jogos desenvolvidos têm o ideal de aproximação do mundo real, prevendo as possibilidades de resultados que são mais factíveis, dada a informação possuída pelos analistas sobre o cenário que está modelando. Todavia, aí está uma das limitações centrais dos modelos de teoria dos jogos: como um modelo, eles representam apenas fragmentos da realidade, buscando reduzir a imprevisibilidade e a incerteza das ações dos jogadores sem eliminá-las por completo. Os cenários analisados podem sofrer mudanças repentinas que evoquem a necessidade de reinterpretá-los à luz de outros modelos de jogos, impedindo estratégias lineares.

Ainda, a previsão de resultados é complicada pela frequente assimetria de informações entre os jogadores e pela simultaneidade de ações dos jogadores, dificultando a percepção de como os demais jogadores responderão à jogada de um deles. É frequente também que o analista perceba, ao aplicar modelos estratégicos, que há múltiplos níveis de análise cuja interdependência exige sua inserção no modelo. Powell (1999) visualiza esta situação ao examinar a influência que a realocação de recursos (poder militar e tecnológico) exerce quando é realizada durante negociações entre Estados.

Estudar a teoria dos jogos nas relações internacionais na atualidade, portanto, representa não só um pensamento estratégico voltado para a consecução de objetivos com baixos custos de ação, mas também uma forma de auxiliar os jogadores a tomarem decisões que não lhes ponham em maus lençóis. Apesar das críticas sobre o seu reducionismo inerente, a TJ emprega seus métodos para uma compreensão de uma realidade parcial, ao não procurar explicar a totalidade dos fenômenos, e sim estudar momentos decisórios considerados essenciais em contextos específicos. Ao considerarmos que as relações internacionais se constituem por sequências desses momentos decisórios, visualizamos também um vasto campo de aplicação para a teoria dos jogos. Para compreender como essas decisões são tomadas e qual o seu impacto, é imperativo estudar a “essência da decisão”, a estrutura de crenças e preferências por trás de cada processo decisório e, assim, explicar o que motiva as escolhas das principais personagens do jogo das relações internacionais.

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* Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe, membro do Centro de Estudos Internacionais (CEI/UFS).

** Doutor em Ciência Política (UFPE), professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (DRI/UFS), líder do Centro de Estudos Internacionais (CEI/UFS), pesquisador e vice-líder do Núcleo de Estudos em Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI/UFPE).

Referências:

ALLISON, Graham; ZELIKOW, Philip. (1999), Essence of decision: Explaining the Cuban Missile Crisis. New York, Addison Wesley Longman.

POWELL, Robert. In the Shadow of Power: states and strategies in the international politics. New Jersey: Princiton University Press, 1999.

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