Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Month: February 2016

A estatocentricidade das relações internacionais: um paradigma ainda persistente. Até quando?

A estatocentricidade das relações internacionais: um paradigma ainda persistente. Até quando?

Thales Castro
  Por Thales Castro* O Estado é o principal componente do amplo fenômeno personificado da interação internacional. Como peça-chave na relação sujeito-objeto internacional, o Estado tem centralidade e prerrogativas unívocas que o distingue, de forma pontual, de outros atores internacionais.[1] Não se pode conceber o estudo do Estado (estatologia) sem sua relação direta com o poder (cratologia) que será analisado no próximo capítulo. Na verdade, Estado e poder se confundem em uma lógica própria e intrínseca de cientificidade política internacional.[2] O Estado nacional é criação, relativamente, recente no amplo dínamo histórico da humanidade. O Estado foi forjado na violência e, como tal, representa a priori a lógica de manifestação e materialização das forças sociais de profundo e
Estratégias de Operacionalização de Conceitos Teóricos

Estratégias de Operacionalização de Conceitos Teóricos

Augusto W. M. Teixeira Júnior
Por Augusto Teixeira Jr.* Se pensarmos na evolução das Relações Internacionais veremos que conceitos teóricos são centrais na nossa compreensão estruturada do mundo. Entre estes, dicotomias teórico-conceituais possuem um local especial no campo. Por exemplo, em oposição à Paz, a Guerra – pensada através da teoria clausewitziana –representa a manifestação fática de um fenômeno apreensível à luz da razão e da História. Destarte a relevância de conceitos teóricos e dicotomias, se faz necessário indagar: como operacionalizar a ideia de guerra em termos empíricos? De uma forma geral, indo além do conceito Guerra, como classificar e mensurar conceitos teóricos abstratos? Como avaliar sua presença e efeito? Na prática, estas indagações nos remetem a um desafio comum nas Ciências Sociais: conve
A China e a sua modernização militar

A China e a sua modernização militar

Antonio Henrique Lucena Silva
Por Antonio Henrique Lucena Silva* A ascensão chinesa tem gerado muitos questionamentos sobre as “pretensões” chinesas nesse momento de realinhamento do poder mundial. Na sua política externa e de defesa, a China tem apresentado mudanças importantes. Ela passou a caminhar com as “duas pernas” nas suas relações com o mundo exterior, priorizando os elementos multilaterais de política externa, bem como a construção unilateral de seus recursos econômicos, políticos e militares (BELLO & GREBREWOLD, 2010, p.216). Um dos elementos que causa maior preocupação entre os seus vizinhos é que a China investe uma grande quantidade de recursos na modernização das suas Forças Armadas desde o início dos anos 1990. Além da defesa territorial do país e das suas fronteiras, a extensão do alcance estra
União Europeia: Agricultura em Crise?

União Europeia: Agricultura em Crise?

Marcelo de Almeida Medeiros
Por Marcelo de Almeida Medeiros* Desde os primórdios da integração europeia, a Política Agrícola Comum (PAC) tem se constituído em um dos principais esteios das políticas públicas concebidas por Bruxelas. Se no passado mais remoto ela chegou a representar dois terços das despesas do orçamento comunitário, a PAC ainda hoje é responsável por quase 40% das despesas deste orçamento. Ora, esta situação não é percebida de forma homogênea pelos vinte e oito membros da União. Há aqueles que são favoráveis a uma maior liberalização do mercado e, consequentemente, uma diminuição dos instrumentos protecionistas; e há os que, por razões econômicas e também sociais, insistem em uma PAC robusta. No primeiro caso, pode-se apontar como exemplo o Reino Unido; no segundo, a França. Na verdade, neste ce
As Potências no Sistema Internacional – Parte 1

As Potências no Sistema Internacional – Parte 1

Júlio César Cossio Rodriguez
Por Júlio César Cossio Rodriguez* O conceito de potência é um dos mais utilizados na área de Relações Internacionais, mas isto não significa que seu uso seja consensual. Cada programa de investigação da área define os critérios para categorizar os atores internacionais principais, os estados, em relação ao seu potencial. Neste sentido, não é tarefa difícil identificar uma grande potência, seja levando em conta agregados de poder ou critérios minimalistas. Os principais autores realistas vão considerar, para definir o potencial de um estado, medidas no poder econômico, militar e político. Entretanto, mesmo dentre os realistas, não há consenso sobre quais são os critérios principais. Considerando os escritos de Hans Morgenthau, podem ser levados em conta os recursos não-operacionalizáveis
Temas e Desafios da Política Externa Brasileira  para 2016

Temas e Desafios da Política Externa Brasileira para 2016

Elton Gomes dos Reis
Por Elton Gomes dos Reis* A política externa do Governo Lula foi orientada, essencialmente, pelo clássico dossiê diplomático brasileiro do universalismo. Sua maior linha de atuação consistiu na busca de múltiplos contatos políticos e comerciais corporificados na diversificação de contatos bilaterais. Amplamente beneficiada pela estabilização econômica gestada no governo de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, e impulsionada pelo contexto positivo do superciclo das commodities, a diplomacia da era Lula avançou em campos importantes. A característica mais inovadora da sua gestão em termos de política exterior foi a intensificação da cooperação Sul-Sul, promovendo a intensificação das relações com os países emergentes. A essas se somaram as novas estratégias de softbalancing corporif
Por que estudar teoria dos jogos? Lições de Allison e Zelikow (1999).

Por que estudar teoria dos jogos? Lições de Allison e Zelikow (1999).

Irene Rodrigues Gois, Rodrigo Barros de Albuquerque
Por Irene Rodrigues Gois* Rodrigo Barros de Albuquerque** A teoria dos jogos (TJ) surgiu a partir da teoria da escolha racional e se desenvolveu em diversas áreas, como a economia, a ciência política e as relações internacionais, esta última sendo o principal enfoque deste texto. A TJ utiliza-se de modelos matemáticos que asseguram maior precisão analítica. Através desses modelos - o dilema do prisioneiro, o jogo do galinha e a batalha dos sexos, por exemplo -, busca-se contribuir para a análise estratégica dos eventos que envolvem barganha, antecipando as melhores ações em cada cenário possível. Dada a adoção da perspectiva racional, as decisões consequentes do emprego desses modelos baseiam-se na maximização de resultados por meios que proporcionem menores custos e maiores benefícios
Theory and real foreign policy (2): elements of a way out

Theory and real foreign policy (2): elements of a way out

Jean Daudelin
Por Jean Daudelin* [This is the second of two posts with the same title. In the first, I discuss the lack of relevance of much contemporary IR and the "root causes" of the problem. Here, I try to show how "good" theory and the right time horizon could greatly enhance the relevance of IR studies] IR would gain a lot by going back to its roots in classical social science and political economy, particularly those few theories that make the formulation of causal hypotheses possible. I will briefly outline a few examples of propositions based on such theories and show how they produce quite interesting outcomes. The first builds on an already old idea about the logic of state building. It is best exemplified by Charles Tilly's famous paper on "War Making and State Making as Organized Crime...
Refugiados: conceituação e ascensão na agenda internacional*

Refugiados: conceituação e ascensão na agenda internacional*

Andrea Steiner, Juliana Fernandes
Por Juliana Fernandes** Andrea Steiner*** As raízes históricas da institucionalização internacional do tema dos refugiados remontam ao século XX, especificamente o período entre guerras, quando foram constituídas as primeiras instituições para lidar com esse grupo. Dentre elas, podemos destacar o Comitê Intergovernamental para os Refugiados (CIR), criado em 1938, a Administração das Nações Unidas para o Auxílio e Restabelecimento (ANUAR), de 1943, a Comissão Preparatória da Organização Internacional para os Refugiados (CPOIR), de 1946, e a Organização Internacional para os Refugiados (OIR), de 1947.    Entendeu-se que a OIR não logrou êxito em encontrar uma solução definitiva para a problemática dos refugiados, haja vista que em 1951, um ano antes do mandato da organização expirar, a
Perspectivas da integração jurídica: a OEA e as CIDIPS

Perspectivas da integração jurídica: a OEA e as CIDIPS

Eugênia Barza
Por Eugênia Barza* A Organização de Estados Americanos (OEA) é resultado direto do Pan-americanismo, a evolução e o aprimoramento de uma secretaria executiva vinculada ao Departamento de Estado Norte-Americano, responsável pela consolidação de memória de acordos internacionais regionais firmados. O Tratado constituidor da OEA, a Carta de Bogotá de 1948, com suas emendas e reformas de 1967 a 1992, aponta a promoção de solidariedade e a intensificação da colaboração entre os membros como objetivos principais. Persiste o intento de integração regional, tendo na cooperação uma das estratégias que requererá certas adequações normativas para que os acordos estabelecidos possam ser cumpridos. É na estrutura da Organização dos Estados Americanos (OEA) que encontramos dois mecanismos jurídicos