Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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O Método Histórico-Comparativo e a Matemática!

Por Júlio César Cossio Rodriguez*

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Como demonstrado nas postagens anteriores (Em defesa do Método Histórico Comparativo (MHC); O Process Tracing e o teste de hipóteses) , o MHC passa por uma recuperação dentro das ciências sociais. Uma das mudanças realizadas pelos autores que operam a atualização deste método é a defesa do uso de diagramas para a representação gráfica das relações causais. A sua utilização se faz necessária devido a uma das fraquezas desta metodologia, ou seja, o difícil entendimento das condições e de suas relações por meio do texto escrito. Desta forma, não é tarefa fácil para os leitores dos textos que se valem deste método a compreensão de, por exemplo, como se relacionam as diferentes condições INUS de um determinado resultado. Assim, autores como James Mahoney e Rachel Vanderpoel defendem que a representação gráfica por meio dos diagramas Euler, especificamente os diagramas de Venn, facilita a percepção do MHC.

A utilização de diagramas também acaba por atrair a simpatia dos acadêmicos mais voltados aos métodos quantitativos. Cabe destacar, ainda, que a utilização de diagramas vem crescendo na ciência política, pois eles aumentam a memorização e facilitam as análises, como sugere Henry E. Brady. Portanto, o uso da matemática (representações gráficas de conjuntos e diagramas de Venn) é condição necessária para a plena compreensão deste método. Isto, obviamente, não implica em mudança de seu cariz qualitativo, pois o uso de gráficos matemáticos não pode ser confundido com métodos estatísticos ou de Regressão Multivariada (MRM).

Outro aspecto a ser destacado é que a forma de elaboração destes gráficos não é aleatória e obedece a regras de proporção e de relacionamento entre os conjuntos. O trabalho de Mahoney e Vanderpoel (2014) sobre diagramas é bastante claro neste sentido. Estes autores ressaltam os cuidados que os cientistas sociais devem ter ao usar diagramas em seus trabalhos. Em especial, preocupam-se em dar dicas sobre os usos deles, que devem obedecer aos conceitos estabelecidos sobre as causas e condicionantes. O primeiro exemplo considerado refere-se às relações de suficiência e necessidade. Como a suficiência implica em um grau de determinação maior, isto é, quando uma condição suficiente estiver presente, há resultante e ela será representada por diagrama menor do que o do efeito. Desta forma, o diagrama da suficiência será sempre menor do que o da resultante. E, por ter definição distinta e oposta, a condição necessária será maior do que o resultado, logo sua representação será maior.

O exemplo utilizado por aqueles autores refere-se às teorias sobre a Paz Democrática, as quais afirmam que democracias não entram em guerra com outras democracias. Assim, a existência de dois estados democráticos é suficiente para que não entrem em guerra. Para este relacionamento temos o seguinte diagrama:

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O conjunto das democracias é menor do que o da não ocorrência da guerra, pois o número de casos em que não há guerra entre duas democracias, é maior do que a relação entre duas democracias que não fazem guerra entre si. Por outro lado, a existência de dois estados não democráticos (díade não democrática) é necessária (mas não suficiente) para a ocorrência de guerra entre estes estados (Díade em Guerra). Assim, o diagrama deste relacionamento fica como o abaixo:

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Cabe então demonstrar como fica o diagrama da condição mais frequente nas ciências sociais, isto é, a condição INUS (que são parte insuficiente, mas necessária, de uma condição que é ela mesma não necessária, mas suficiente para o resultado). Os autores valem-se dos estudos de Wickham-Crowley (1992) sobre os movimentos de guerrilha camponesa na América Latina, para exemplificar a representação gráfica de condições INUS. Segundo este autor a combinação de uma comunidade camponesa com uma cultura rebelde (ou revolucionária) é suficiente para o apoio campesino a movimentos de guerrilha. Assim, uma comunidade campesina e a cultura de rebeldia de forma separadas são insuficientes para explicar o apoio camponês à guerrilha, mas formam parte de uma condição suficiente para o resultado. Graficamente o diagrama deste relacionamento fica assim:

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Logo, de forma separadas as condições INUS X1 e X2 não permitem a ocorrência da resultante Y, mas quando em conjunto (X1 x X2) são suficientes para ocorrer Y.

Tais exemplos demonstram a eficiência dos diagramas para melhorar a compreensão do relacionamento entre as condições encontradas nos trabalhos históricos-comparativos. O uso, então, de representações gráficas e diagramas pode facilitar a memorização e as análises realizadas por politólogos. Enfim, cabe destacar que o uso de diagramas não se restringe ao MHC e pode ser utilizada em outros tipos de estudos. Porém, para trabalhos que usam o MHC recomenda-se vivamente o uso destes diagramas para minimizar os efeitos da difícil linguagem empregada por este método. Curiosamente é a matemática que pode facilitar a compreensão de uma metodologia qualitativa das ciências sociais!

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* Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia/Ciências Sociais e de Política Internacional Contemporânea na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Doutor em Ciência Política (Universidade de Lisboa), Mestre em Ciência Política (UFRGS) e Bacharel em Relações Internacionais (UFRGS). Pesquisador Associado do Centro Internacional de Estudos sobre Governo (CEGOV/UFRGS).

Referências:

BRADY, Henry E. The art of political science: spatial diagrams as iconic and revelatory. Perspectives on Politics, v. 9, n. 02, p. 311-331, 2011.

MAHONEY, James; VANDERPOEL, Rachel Sweet. Set Diagrams and Qualitative Research. Comparative Political Studies, v. 48, n. 1, p. 65-100, 2015.

WICKHAM-CROWLEY, Timothy P. Guerrillas and revolution in Latin America: A comparative study of insurgents and regimes since 1956. Princeton University Press, 1992.

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