Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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As contribuições teórico-metodológicas da análise de política externa contemporânea

Por Elton Gomes dos Reis*

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A Primeira metade dos anos 1990 representou um momento crítico para a Análise de Política Externa enquanto domínio específico de disciplinas acadêmicas como a Ciência Política e as Relações Internacionais. As redefinições pelas quais o cenário internacional e a comunidade acadêmica passam no final do século XX geram a necessidade de adequar o estudo da Política Externa a uma nova construção contextual. Diante de intensas e dinâmicas transformações do sistema político mundial e da emergência de novos paradigmas analíticos, os analistas de Política Externa se viram obrigados a rever seus pressupostos, promovendo uma atualização das categorias analíticas amiúde empregadas e criando novas ferramentas explicativas. Sobretudo, os pesquisadores da área se viram diante da necessidade de promover mais explicações de caráter multicausal e ampliar a análise em múltiplos níveis. As três grandes tradições analíticas da APE (Política Burocrática, Política Externa Comparada e Psicologia dos líderes Políticos) continuam a existir. No entanto, as abordagens mais contemporâneas são caracterizadas pela presença de mais pontes epistemológicas entre si, havendo portanto uma maior integração entre as vertentes analíticas da APE do que nas gerações anteriores.

O desmantelamento do Bloco Soviético e o fim do conflito bipolar são vistos pelos analistas como a grande transformação para o estudo da política internacional durante esse período. O declínio relativo das questões de segurança tradicionais e a emergência de uma ordem multipolar do ponto de vista político e econômico representaram uma experiência de grande alcance para o estudo da Política Externa. O término da Guerra Fria se soma com a redefinição de tempo e espaço propiciada pela tecnologia de informação (revolução telemática) e o processo de intensificação da mobilidade do capital financeiro sobrevindos igualmente no último quartel do século XX.

Diante de um mundo mais complexo e dinâmico, ocorreu a necessidade de adaptar a APE para compreender o mundo. Em trabalho de grande referência, Hudson (2006) sintetizou os cinco grandes compromissos teóricos da Análise de Política Externa que foram estabelecidos pela comunidade acadêmica depois do colapso do sistema bipolar:

1)         O compromisso de olhar abaixo do nível de análise do Estado Nacional,     reunindo informações sobre atores específicos;

2)         O desenvolvimento de teorias de médio alcance capazes de estabelecer uma interface entre as abordagens generalistas centradas nos atores e a complexidade do mundo real;

3)         A busca por explicações multicausais, contemplando múltiplos níveis de análise;

4)         A utilização de teorias e achados empíricos provenientes do espectro amplo das Ciências Sociais;

5)         A compreensão do processo decisório (inputs) em Política Externa como se tratando de um elemento tão importante quanto os resultados (outputs) dele decorrentes.

A literatura atual revela tanto a manutenção das inflexões recorrentes desse subcampo da Ciência Política quanto o estabelecimento de novas agendas presentes nas abordagens mais contemporâneas no estudo da Política Externa. A recente incorporação do process-tracing na APE está diretamente conectada com o compromisso da subdisciplina em promover análises integradas, estabelecido depois do fim da Guerra Fria. O pressuposto básico de que os fatores internos e externos se combinam em Política Externa é amplamente assumido na bibliografia acadêmica sobre o tema. Segundo Hill (2003, p. 28), “a política externa é um processo complexo de interação entre vários atores, envolvidos diferentemente num conjunto amplo de estruturas diversificadas. A sua interação é um processo dinâmico, levando à evolução constante dos atores e das estruturas”. Este processo, outrora designado como two-level game por Putnam (1988), implica uma articulação complexa na busca por equilíbrios entre o nível doméstico e todos os atores que este envolve, e o nível internacional, onde se projetam as políticas e cuja complexidade em termos de atores e da forma como estes interagem e interferem na tomada de decisão em política externa não deve ser negligenciada (BREUNING, 2007). Soma-se a isso que o próprio Estado Nacional em Política Externa pode assumir distintas variações nas dinâmicas da agência-estrutura, ora atuando como condicionante, ora atuando como agente.

O process-tracing representa uma tentativa de identificar os elementos intervenientes do processo causal, isto é, a cadeia de eventos causais que há entre a variável independente e os resultados, ou variáveis dependentes. Essa metodologia experimentou um verdadeiro surto de popularidade na Ciência Política qualitativista nos últimos anos, fazendo com que um expressivo grupo de autores reintroduzisse a explicação por mecanismo em oposição ao clássico modelo de King, Keohane e Verba (1994) para estudos de caso. Assim, numerosos estudantes de doutorado e acadêmicos estabelecidos vêm empregando métodos de process-tracing em suas pesquisas sobre os fenômenos de política externa (KHONG, 1992; OWEN, 1994; BENNETT; ELMAN 2006; LEHTONEN 2009; JACOBS 2011). Essa perspectiva chegou ao estudo da Política Externa, onde encontrou um terreno fértil para a sua aplicação devido à tendência contemporânea verificada entre os analistas de promover estudos de caso e pesquisas do tipo small N dentro de abordagens de síntese.

Em sua reflexão sobre os novos desenvolvimentos analíticos da APE, Valerie Hudson (2005) reconhece o process-tracing como uma das grandes contribuições analíticas para a construção de uma teoria sobre atores específicos (Actor Especific Theory)[1]. Segundo a autora, os estudos de caso em profundidade em Política Externa podem permitir importantes achados empíricos mediante uma associação dessa técnica de pesquisa com outras metodologias, tais como o emprego da análise de conteúdo e dos modelos computadorizados. Para ela, a tendência comumente verificada nas grandes teorias de Relações Internacionais de buscar o desenvolvimento com elevado grau de generalização difere da pretensão analítica da APE pós Guerra Fria. Esta se mostra cada vez mais compromissada com a criação de teorias do tipo ator-específico.

Nos últimos anos, analistas de Política Externa como Dereck Beach (2012) têm procurado empregar a abordagem de process-tracing para a elaboração de novas teorias, promoção de testes de hipótese e para o fornecimento de explicações sobre fenômenos específicos relativos à Política Externa de um Estado em particular ou a um determinado grupo de Estados.

O debate contemporâneo acima descrito segue em curso, gerando novas contribuições analíticas e achados empíricos. O movimento dos ciclos acadêmicos gerado pela adoção de abordagens do tipo process-tracing e ator-específico trouxe um novo impulso para o emprego de métodos qualitativos e abordagens histórico comparativas no campo da Análise De Política Externa.

Para mais informações sobre Process-tracing, veja também: O Process-tracing e o teste de hipóteses.

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* Bacharel em Ciências Sociais (UFPE), Mestre e Doutor em Ciência Política (UFPE). Atualmente é professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: análise de política externa, política externa brasileira, integração regional e organizações políticas internacionais.

[1] Hudson define esse tipo de teoria nos seguintes termos: “A teoria ator-específico é simplesmente diferente em seus objetivos, e, portanto, também é diferente em seus métodos. A teoria ator específica é concreta, contextual, complexa e a parcimônia não é necessariamente um atributo de uma boa teoria ator específica. Embora se possa usar alguns dos métodos preferidos pelos teóricos dos atores gerais, na maioria das vezes as escolhas metodológicas serão bem diferentes: análise de conteúdo , estudo de caso profundidade, processs tracing , modelos e simulações computadorizadas baseados nos agentes , entre outros. Além disso, muitas das variáveis analisadas são do tipo não quantificável: cultura, pequenas dinâmicas de grupo, política burocrática. Foi só quando o subcampo começou a reconhecer e aceitar que o desenvolvimento da teoria da APE e suas preferências metodológicas diferem daquelas do mainstream contemporâneo em Relações Internacionais que um novo progresso pôde ser feito”. (HUDSON, 2005, p, 14)

Referências

BEACH, Derek. Analyzing foreign policy. Palgrave Macmillan, 2012.

BEACH, Derek; PEDERSEN, Rasmus Brun. Process-tracing methods: Foundations and guidelines. University of Michigan Press, 2012.

BENNETT, Andrew; ELMAN, Colin. Qualitative research: Recent developments in case study methods. Annu. Rev. Polit. Sci., v. 9, p. 455-476, 2006.

BREUNING, Marijke. Foreign policy analysis: a comparative introduction. New York: Palgrave Macmillan, 2007.

HILL, Christopher. The changing politics of foreign policy. Palgrave, 2003.

HUDSON, Valerie M. Foreign Policy Analysis: Actor‐Specific Theory and the Ground of International Relations. Foreign Policy Analysis, v. 1, n. 1, p. 1-30, 2005.

__________________. Foreign Policy Analysis: Classic and Contemporary Theory Maryland: Rowman & Littlefield publishers, 2006.

JACOBS, Alan M. Governing for the long term: democracy and the politics of investment. Cambridge: Cambridge University Press, 2011.

KHONG, Yuen F. (1992) Analogies at War. Princeton: Princenton University Press.

KING; Gary; KEOHANE, Robert O.; VERBA, Sidney (1994). Designing Social Inquiry: Scientific Inference in Qualitative Research. Princeton: Princeton University Press.

LEHTONEN, Tiia. Small States–Big Negotiations. 2009. Tese de Doutorado. European University Institute Florence.

OWEN, John M. How liberalism produces democratic peace. International security. n⁰ 19, v 2. 87-125, 1994.

PUTTNAM, Robert D. (1988) “Diplomacy and Domestic Politics: The Logic of Two-Level Games” International Organization, Vol. 42, No. pp. 427-460.

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2 Comments

  • […] Tendo em vista um quadro tão pouco favorável em um novo ano que se inicia carregado de projeções negativas feitas pelos analistas em face das crises política e econômica, poder-se-ia inquirir quais seriam as grandes questões a serem tratadas pelo governo Rousseff com o propósito de recuperar os instrumentos de inserção internacional do Brasil nos planos regional e internacional. De modo resumido e esquemático, é possível elencar alguns tópicos de maior relevo para a obtenção dessas metas políticas, apontando para aquilo que, por sua importância cabal, impõe-se aos tomadores de decisão e formuladores de política para a condução das relações exteriores do país . Estes “nós górdios” com os quais o atual governo se deparará no ano que se inicia enfatizam a íntima conexão de elementos de política doméstica com fatores sistêmicos provenientes das arenas comercial e de política externa, conforme atestam os principais desenvolvimentos da análise de política externa contemporânea. […]

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