Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Como estudar gênero em RI?

Mariana Meneses*
Rodrigo Albuquerque**

mulheres sírias
Mulheres Sírias em campos de refugiados no Líbano. Fonte: UNHCR/A.McConnell, em O Globo.

Em texto anterior, defendemos a incorporação da análise feminista à disciplina de Relações Internacionais enquanto necessária dentro do processo de empoderamento feminino. Uma leitora convencida de tal importância pode, contudo, indagar: mas e como fazê-lo? Pretendemos, portanto, com o presente texto, elucidar algumas formas de como inserir perspectivas sensíveis ao gênero nos estudos da área.

Em primeiro lugar, faz-se necessário esclarecer que em RI e de maneira geral não existe um feminismo uno ou singular. É por isso que diversos trabalhos (são exemplos: CERQUEIRA, 2011; COSTA, 2013; MONTE, 2013; TICKNER, 1997) se referem comumente aos ‘feminismos’, no plural. Essa pluralidade deriva da impossibilidade em agrupar em um mesmo feminismo demandas específicas. É o caso do feminismo negro, por exemplo, que aborda questões de opressão racial que são específicas desse grupo. De maneira análoga, em RI encontram-se diversas correntes feministas. São exemplos, além do já mencionado feminismo negro, o pós-colonial, marxista, liberal e queer (JESUS, 2014). Essas feministas não apenas não veem o mundo da mesma forma, como, ao fazerem suas análises sobre o internacional, não necessariamente fazem uso dos mesmos métodos e técnicas. A seguir apresentaremos alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos por feministas em diversas subáreas do campo das Relações Internacionais.

Monte (2010) defende que o discurso tradicional de segurança, que leva em consideração a segurança nacional, a defesa de territórios, o militarismo e o autoritarismo, é eminentemente masculinista. Isso porque favorece ao mesmo tempo o espaço público, dominado pelo homem (ver mais sobre dicotomia público-privado em: ABOIM, 2012) e características socialmente relacionadas a ele, como rigidez, violência e força. A autora, assim, defende o estudo de segurança através de alternativas de segurança humana, alterando a priorização de referentes e diminuindo a marginalização intrínseca à concepção tradicional, uma vez que esta privilegia a segurança nacional, em detrimento dos níveis individual e sistêmico. A segurança humana, na visão da autora, possibilita a conciliação dos níveis individual, doméstico e internacional, de maneira que a utilização de um conceito amplo de segurança é comum à maioria dos estudos feministas da área.

Kosminsky (2007) se debruça sobre a questão das migrações internacionais. Para a autora, a abordagem feminista das migrações necessariamente exige uma abordagem pós-positivista, isso porque métodos tradicionais são incapazes de explicar esses processos no nível do indivíduo, uma vez que, como para Monte (2010), a abordagem tradicional leva à marginalização. A autora defende a utilização do método etnográfico para o estudo das migrações internacionais porque ele possibilita o estudo do indivíduo no seu cotidiano, permitindo “a observação direta não apenas de como as pessoas atuam, mas também de como elas entendem e experimentam esses atos” (p. 800). Esse método se demonstra especialmente importante nos estudos de migração porque permite um conhecimento amplo sobre o processo, englobando o estilo de vida do imigrante, trabalho, família, relações de gênero na comunidade, dentre outros, ao contrário da limitação de métodos tradicionais, que se debruçam sobre um aspecto específico, em muitos casos deixando de fora o contexto em que se encontra.

Em política externa, destacamos o trabalho desenvolvido por Crage et al (2013), que analisa a política europeia em relação à imigração e demonstra como estereótipos e papeis de gênero são utilizados nesses ministérios. Para os autores, há uma percepção entre partidos da União Europeia de que a integração do imigrante se relaciona a um trabalho de cuidado, enquanto o controle de imigração, ligado ao controle de fronteiras, relaciona-se a questões de segurança. Assim, demonstram como mulheres frequentemente assumem a liderança quando o assunto é inserção do imigrante, enquanto homens permanecem responsáveis pelo controle da imigração. Para os autores, tais estereótipos de gênero são usados na UE como forma de propagandear determinada orientação política em termos de imigração, que pode ou não ser fiel à realidade. A utilização da perspectiva de gênero, aqui, contribui para a compreensão do papel dos estereótipos de gênero na política internacional.

Nos estudos de paz, Perdigão (2012) utiliza o caso do Afeganistão para defender como, de um lado, a participação das mulheres no peacebuilding vem crescendo nos últimos anos, ainda que resistências continuem existindo, e, de outro, a importância do trabalho desenvolvido por essas mulheres em cenários pós-conflito violento no sentido da inserção feminina em âmbito público e na redução da desigualdade de gênero no campo das relações internacionais. A autora conclui que a atuação feminina contribui para processos de paz mais sustentáveis e inclusivos.

Sobre a globalização, Thayer (2001) cita Ferguson (1994) para dizer que o desenvolvimento tem efeitos despolitizantes nas sociedades marginalizadas:

Esse aparato impõe uma perspectiva tecnocrática que acaba servindo a seus próprios interesses e aos dos Estados locais, totalmente alheios às intenções conscientes de qualquer ator social. As populações que são alvo do “desenvolvimento”, embora podendo resistir a seus abusos, são incapazes de articular suas próprias visões alternativas (p. 125).

A autora argumenta que também se verificam desigualdades econômicas globais no espaço dos movimentos sociais transnacionais. Com a globalização, as disparidades de poder entre diferentes atores de movimentos dispersos tornaram-se evidentes. O Movimento da Mulher Trabalhadora do Nordeste é utilizado por Thayer (2011) para defender que, a despeito dessas desigualdades, é possível construir autonomia a partir de recursos enraizados em seu caráter local e da legitimidade que emana da sua base popular. A autora conclui que a legitimidade local de organizações populares feministas pode levar a uma maior institucionalização dos feminismos.

Como é possível notar a partir desses exemplos, em consonância com Monte (2013), as abordagens feministas para as relações internacionais estão preocupadas com as margens do sistema internacional, com o que não é costumeiramente estudado, com o que se acostumou a deixar oculto. Monte (2010) e Kosminsky (2007) defendem a preocupação com o indivíduo, com a perspectiva local, com a comunidade, com a autonomia. Crage et al (2013) e Perdigão (2012) focam nos estereótipos de gênero na política e nas relações internacionais, bem como na inserção feminina em âmbito público. Este texto buscou trazer uma ideia da amplitude das possibilidades de pesquisa em RI sob vieses feministas e que englobem o gênero como categoria de análise. É importante que se note também como esses e outros temas podem ser estudados sob a perspectiva com a qual a estudante mais se identifique, para além do discurso mainstream e das metodologias tradicionais do nosso campo.

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* Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe, membro do Centro de Estudos Internacionais (CEI/UFS) e bolsista PIBIC/FAPITEC.

** Doutor em Ciência Política (UFPE), professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (DRI/UFS), líder do Centro de Estudos Internacionais (CEI/UFS), pesquisador e vice-líder do Núcleo de Estudos em Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI/UFPE).

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