Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Importância e Novos Questionamentos sobre o Estudo da Ciência das Relações Internacionais em Tempos de Perplexidades e Assimetrias

Por Thales Castro*

globalização

Fato observado recorrentemente no estudo das Relações Internacionais é a maior proximidade da interação dos vários atores internacionais. Neste sentido, atualmente observa-se, em consequência desse fato, a tendência de maior densidade destas relações, ora abertas e fechadas, ora pacíficas e conflituosas[1], com suas regras institucionalizadas implícita e explicitamente. Formando, assim, a ampla moldura do macroambiente nas diversas conceituações como “cenário”, “sistema”, “sociedade” ou “comunidade internacional”, o processamento dos meios e dos fins dos fenômenos complexos no “mundo mundo vasto mundo” (Drummond)[2] ou na “economia-mundo” (Wallerstein)[3] se torna bastante útil como ponto de partida deste nosso breve comentário. Os meios e os fins das várias manifestações sensitivas postas ao sujeito cognoscente (interlocutores, analistas, tomadores de decisões, consultores e cidadãos expostos aos temas internacionais) acerca deste ramo do saber representam eixos para nossas análises aqui.[4]

Sim, há ecos no mundo que precisam ser escutados, muitos dos quais advindos da periferia e da semiperiferia com suas muitas denominações (Sul, países em desenvolvimento)[5] em um redesenho de forças no cenário internacional contemporâneo, permitindo, assim, uma maior democratização tanto do processo de formulação quanto de reflexão acerca das teorias e dos conceitos sobre a matéria. Digo mais: não podemos deixar que, exclusivamente, o Norte desenvolvido tenha a hegemonia interpretativa e operacional dos atos e fatos da Ciência das Relações Internacionais. Precisamos verdadeiramente democratizar o diálogo internacional.[6]

A importância do estudo das Relações Internacionais é autoevidente. As Relações internacionais estão em toda parte; fazem parte do nosso cotidiano, quer queiramos ou não. O saber internacional perfura nossas vidas, amplia nossas visões, redefine quem somos como cidadãos e disseca a forma de analisar e tratar o outro.  Sua força questiona e transforma o Estado, seu papel e suas atribuições, (re)equacionando a lógica de poder entre cidadãos, empresas, unidades subnacionais, sociedade civil e organismos multilaterais. Além disso, a interdependência complexa (modelo de Nye-Keohane), o integracionismo comunitário europeu (UE28) ou o processo de integração subregional no nível de união aduaneira incompleta no caso do MERCOSUL, ou mesmo em razão das crescentes problemáticas das guerras com diferentes formatos incluindo as assimétricas, a questão do terrorismo e da segurança internacionais tendo como pano de fundo o papel das ONU com seus atuais 193 Estados-membros são demonstrativos para a investigação sobre os fenômenos internacionais.

A desconstrução do monólito estatocêntrico westphaliano (1648) é marca patente do atual curso da Ciência das Relações Internacionais. Este edifício está em crise estrutural e serão necessários novos aportes teóricos para decifrar tais momentos novos. A exemplo disto, convém citar, ilustrativamente, a emergência do papel das ONGs em escala global, a atuação e a agenda politicamente interessada da mídia transnacional e as questões do ativismo da cidadania entre as nações, que revelam a urgência do processo de ressignificações, construções e reconstruções da Ciência das Relações Internacionais. Do ponto de vista econômico-comercial, a magnitude da impressionante ampliação dos mercados traz novos desafios, reformando lealdades entre os povos. As novas jurisdições penais extraterritoriais reforçam como a interdisciplinaridade pode e deve ter papel essencial na busca de soluções viáveis comuns no campo do Direito Internacional e da assimétrica política entre as nações.[7] Ou seja, precisamos nos adaptar às novas realidades substitutivas da estadolatria e da estato-dependência, que muito se enraizaram na cultura analítico-política da modernidade.

Ainda sobre a importância autoevidente das Relações Internacionais, convém discutir sobre a relação causal entre meios e fins do sistemático estudo desta ciência. Parece-nos que os “fins” – não no sentido do grego clássico do telos, mas no sentido de completude, de fechamento, de término – fazem parte do léxico das Relações Internacionais e da Ciência Política. Desde Hegel até Fukuyama, as teses do “fim da história”, do “fim do Estado” ou ainda do “fim da geografia pós-bipolaridade” são recorrentes e marcam as discussões em torno do Estado e dos indivíduos com seus papéis internacionais. Outro termo muito presente no léxico é, compreensivelmente, “crise”. Fenomenologicamente, as crises do Estado, as crises de identidade nacional (vide balcanização da antiga Iugoslávia do início da década de noventa) e as crises do capitalismo global (microcrises e macrocrises de expansão e retração) são evidências do dinamismo nato das ordens mundiais. Pode-se traçar um paralelo das ordens mundiais com a emblemática “criação destruidora” de Schumpeter sobre acumulação capitalista pós-fordista. Em síntese, meios, fins e crise – apresentam-se como fatores importantes e recorrentes das Relações Internacionais com sua crescente essencialidade verificada universalmente.

Dessa forma, estudar o fenômeno da fascinante ciência das Relações Internacionais importa e nos revela muitas das características individuais e coletivas do convívio em diferentes teias sociais. Faz-se necessário superar os maniqueísmos que esterilizam e enfraquecem o debate mais amplo sobre como os fenômenos se apresentam e se manifestam aos sujeitos. Não há razões que possam ser consideradas melhores ou piores, ou ainda, corretas ou incorretas para aprofundar as análises sobre os fenômenos internacionais. Superando o absolutismo das certezas prontas e imediatas – típicas do atual momento da pós-modernidade e da instantaneidade líquida da sociedade de massa midiaticamente explorada – é que será possível avançar, como ciência social e política, na compreensão de fenômenos internacionais tão antigos quanto a própria existência humana com seus grupamentos ampliados geograficamente. Avante!

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* Doutor em Ciência Política (UFPE); Mestre e Graduado em Relações Internacionais (Indiana University of Pennsylvania). Assessor Internacional e Professor da UNICAP, é Coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Damas, Cônsul de Malta em Recife e Presidente da Sociedade Consular de Pernambuco.

[1] AQUINO, Antônio. Conflito e paz. São Paulo, Loyola, 1992. p. 59-62.

[2] ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia poética. 56ª. ed. Rio de Janeiro, Record, 2005. p. 21.

[3] WALLERSTEIN, Immanuel. Capitalismo histórico e civilização capitalista. Rio de Janeiro, Contraponto, 2001. p. 35-49; 55-57.

[4] Recomenda-se uma avaliação mais criteriosa de Anderson antes de comentar sobre Fukuyama com seu “fim da história” no cenário pós-bipolaridade. A polêmica tese de Fukuyama será tratada com mais detalhes adiante. ANDERSON, Perry. O fim da história de Hegel à Fukuyama. Rio de Janeiro, Zahar, 1992. p. 35-39.

[5] Duas metáforas imagéticas cumprem um papel fundamental na defesa desta argumentação: a antropofagia oswaldiana na alvorada do movimento modernista brasileiro e a pedagogia dialógico-construtivista do pernambucano Paulo Freire. A junção-síntese desses movimentos singulares e complementares exercem significativo papel na necessária redemocratização – lato sensu – Sul-Norte e Norte-Sul da ciência e da práxis das Relações Internacionais.

[6] Cervo discute, com propriedade, a necessidade e nossa posição faz eco ao que o professor da UnB analisa a agenda, politicamente, guiada e nem sempre imparcial da academia. CERVO, Amado Luiz. Inserção Internacional: formação dos conceitos brasileiros. São Paulo: Editora Saraiva, 2008. p. 32-45.

[7] Tenho desenvolvido, recentemente, em algumas de minhas publicações, um diálogo crítico para repensar o sistema jurídico internacional que denomino de “semidireito internacional” entre a natureza incompleta e parcialmente efetiva (perspectiva deôntica) do Direito Internacional com a instrumentalidade da política internacional (perspectiva ôntica). CASTRO, Thales. Entre direito e política internacional: para a formação teórica do semidireito internacional. In DINIZ, Eugênio, org. Estados Unidos: política externa e atuação na política contemporânea. Belo Horizonte, Editora PUC-Minas, 2009. p. 425-430. Vide também: CASTRO, Thales. Teoria das Relações Internacionais. 2ª. ed. Brasília, FUNAG/Itamaraty, 2016. p. 72-90.

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