Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Como Melhorar a Qualidade das Inferências nos Estudos de Caso em Relações Internacionais?

Por Augusto Teixeira Jr.*

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Seja pelo baixo apreço por métodos quantitativos em Relações Internacionais no Brasil ou pela predileção por explorar complexas cadeias causais, os Estudos de Caso podem ser uma poderosa ferramenta de pesquisa[1]. Apesar de ser um desenho de pesquisa cada vez mais relevante, dotado de uma expressiva literatura que o discute, tradicionalmente apresenta limites clássicos, em particular no que tange à qualidade ou força de suas inferências. Dito de uma forma simples, inferir é dizer algo sobre o que não se conhece a partir do que é conhecido. Desta forma, toda inferência pressupõe um grau de incerteza e possibilidade de falseamento. Na prática, o labor científico é feito da produção de inferências sobre a realidade, no nosso caso, internacional.

 Possibilidades de Generalização com Estudos de Caso

Quando falamos de Estudos de Caso, um desafio nos é posto: como produzir boas inferências com uma pequena quantidade de observações típicas de Single Case Study? Esta questão é fundamental no que diz respeito ao nível de generalização que o pesquisador busca alcançar em seu labor. Entre a descrição, classificação, análise e previsão, o nível de generalidade do conhecimento produzido oscila entre o nulo, o mínimo e o máximo. E nesse sentido, vale indagar se é possível inferir e generalizar com Estudos de Caso ou se seria essa estratégia de pesquisa apenas um guia para a descrição organizada e sistemática. Se é possível, então como inferir com apenas um Caso? Para responder a esta questão, vale a pena dispensar algumas linhas sobre quais razões levam pesquisadores a optar por este tipo de estratégia de investigação.

Um motivo comum está relacionado ao tipo de pergunta de pesquisa em pauta. Muitas vezes o pesquisador esta preocupado com um evento em particular. “O que levou a…”, “por que este resultado?”, “o que explica determinada decisão”, etc. Este tipo de pergunta está preocupado com fatos, eventos e acontecimentos que, em virtude de uma boa problematização, merecem o escrutínio científico. Neste caso, a opção pela generalização é acessória. Mais vale uma boa resposta ao dilema em tela do que a formulação de elementos generalizáveis. Entretanto, observe-se que o Caso serve não apenas para descrever, mas para explicar algo através da análise empírica.

Outra razão consiste em usar um Caso para testar, confirmar ou problematizar uma determinada teoria. Nestas situações é fundamental a conexão entre evento e o fenômeno. Nesta circunstância o Estudo de Caso dialoga com a possibilidade de generalização no campo teórico. Não é que o estudo do caso em si possibilite generalizar uma inferência, mas ele traz elementos para testar ou problematizar uma determinada teoria. Nesse sentido, como desenvolvido por George e Bennett[2] em Case Studies and Theory Development in Social Sciences, o desenho de pesquisa em tela pode ser uma ferramenta útil tanto para o avanço teórico como para o conhecimento empírico.

Pensar a Revisão Teórica e de Literatura como parte da Metodologia

Dito isto, voltamos à questão sobre como produzir inferências fortes a partir do emprego de Estudo de Caso. Tradicionalmente o percurso de investigação científica é o seguinte: o pesquisador seleciona um tema e, a partir deste, o objeto, do objeto deriva o problema e do problema, a melhor opção metodológica para resolver o puzzle estruturado na investigação[3]. Normalmente, articula-se um nexo entre problema e literatura (teórica, empírica ou ambas). Após uma criteriosa revisão de literatura, a partir da escolha da linha analítica a ser perseguida, o investigador apresenta a sua teoria, conjunto de autores e conceitos que utilizará para destrinchar o problema de pesquisa. Nesta enquadratura, realiza a pesquisa, coleta os dados apontados pelo framework teórico, analisa os dados e as variáveis, reflete sobre eles, sintetiza os resultados e produz conclusões. De uma forma geral, este caminho é suficiente para a produção de inferências. Entretanto, o Estudo de Caso pode ser potencializado para a produção de inferências mais fortes, inclusive de cunho causal. Mas como? Voltemos para a revisão da literatura.

Primeiramente, independente de qual seja o problema de pesquisa empírico que o referido Estudo de Caso enfrente, ele se filia a um ou mais tipos de fenômeno[4]. Ao estabelecer a relação entre evento (Caso) e fenômeno (teoria), o pesquisador coloca a sua pergunta empírica em contato com debates num campo de abstração superior, talvez útil para a investigação[5]. Na prática, ao conectar caso e teoria, o pesquisador poderá organizar na revisão da literatura distintos caminhos causais e estratégias explicativas para o problema em apreço. Cada teoria distinta pode partir de bases ontológicas, epistemológicas e/ou metodológicas distintas. Com isso, o desenho de pesquisa amplia o conjunto de distintas respostas possíveis ao problema posto, reforçando assim a força e qualidade de suas inferências pelo choque com explicações rivais[6]. Em segundo lugar, a Revisão da Literatura, autores, artigos e textos de expressiva relevância podem ter a função de organizar, através da classificação de distintas explicações, variáveis e conceitos aptos a produzir respostas ao que se quer saber (variável dependente).

Conclusão: maximizando as observações a partir da inclusão de explicações concorrentes ao puzzle

A esta altura, o leitor poderá se perguntar: por qual razão me daria ao trabalho de pensar a revisão da literatura teórica e empírica como parte da estratégia metodológica? A resposta é simples e pode ser dada em três pontos:

  1. cada linha de investigação apresenta uma estratégia de pesquisa, conceitos e variáveis que apontam para distintas possibilidades explicativas do problema posto;
  2. a conexão Caso e Teoria facilita a produção de hipóteses com maior capacidade de generalização ou, ao menos, promove o diálogo com debates no campo do fenômeno em apreço (teoria geral ou de médio alcance);
  3. levar em consideração distintas teorias ou “abordagens” que competem pela explicação do problema de pesquisa ajuda a aumentar a força das inferências produzidas na pesquisa.

A incorporação destes aspectos no planejamento da pesquisa contribui para mitigar o clássico limite dos Estudos de Caso, o de possuir muitas variáveis e poucas observações. Cada caminho causal proposto por uma teoria ou abordagem sobre o mesmo evento em estudo aumenta a quantidade de observações intra-caso, possibilitando o pesquisador a pensar no Estudo de Caso como um desenho de pesquisa rigoroso e sensível à complexidade que os métodos qualitativos privilegiam.

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* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente é professor Adjunto do Departamento de Relações Internacionais da UFPB. Líder do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Segurança Internacional (GEESI/UFPB /CNPq). Membro da Associação Brasileira de Estudos de Defesa.

[1] Sobre a relevância crescente dos Estudos de Caso para a disciplina de Relações Internacionais, ver o artigo “Reavivando o método qualitativo: as contribuições do Estudo de Caso e do Process Tracing para o estudo das Relações Internacionais”.

[2] GEORGE, Alexander L; BENNETT, Andrew. Case studies and theory development in Social Sciences. BCSIA Studies in International Security. Cambridge: MIT Press, 2005.

[3] Sobre puzzle em questões de pesquisa, ver o texto “Montando o puzzle para a pesquisa em Relações Internacionais”.

[4] Por exemplo: cooperação, conflito, Paz, Guerra.

[5] Exemplo: Guerra da Síria (Caso) → Teoria da Guerra (fenômeno = Guerra).

[6] Inclusive, surge com isto a possibilidade do emprego do pluralismo teórico e metodológico como estratégia de estudo.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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