Publicação mensal sobre Relações Internacionais

Página inicial do VOX MAGISTER

Hegemonia e Pós-Hegemonia na Integração Regional Latino-Americana Parte 2 – O modelo pós-hegemônico

Por Israel Roberto Barnabé*

barnabé2

Dando continuidade ao texto anterior, apresento aqui uma breve discussão sobre a superação do modelo único de integração regional (hegemônico/liberal), analisando os movimentos integracionistas mais recentes da região.

A subida ao poder de lideranças de centro-esquerda em diversos países da região no início do século XXI ampliou o questionamento às premissas neoliberais que caracterizaram as políticas nacionais e regionais desses países nos anos anteriores e recolocou a questão sobre os processos de integração – o que possibilitou a constituição de experiências integracionistas diferentes do padrão hegemônico que vigorara na região até então. Os avanços institucionais do Mercosul procurando superar o perfil comercial/econômico que marcou sua origem, as discussões sobre a Comunidade Sul-Americana de Nações (CASA) que, em 2008, deram origem à União de Nações Sul-Americanas (UNASUL), e a constituição da Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA) em 2004 e da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) em 2010 apontam mudanças de rumo no desenho regional latino-americano, com proposições bastante diferentes do modelo hegemônico. Esta nova fase, pós-hegemônica, coloca novos desafios aos pesquisadores e exige uma análise que transcenda a abordagem “velho regionalismo versus novo regionalismo”.

Ao definir o termo ‘pós-hegemônico’, Pía Riggirozzi (2012, p. 12) afirma que:

By post-hegemonic we mean regional structures characterized by hybrid practices as a result of a partial displacement of dominant forms of US-led neoliberal governance in the acknowledgement of other political forms of organization and economic management of regional (common) goods.

Além disso, nota-se a retomada da importância do papel do Estado Nacional como o principal articulador dos processos. Conforme afirmam Veiga e Rios (2007, p.20):

[Este novo momento da integração na região] desloca não apenas o foco da agenda, dos temas econômicos às questões culturais, sociais e políticas, mas também a prioridade concedida, na visão que informa o primeiro diagnóstico, aos agentes econômicos privados, para atribuir aos Estados e aos “movimentos sociais” papel protagônico no processo de integração.

Além do importante papel do Estado, o ‘regionalismo pós-hegemônico’ pode ser pensado a partir das seguintes características: resulta de posicionamento crítico às premissas do Consenso de Washington; não é constituído a partir de discussões econômico/comerciais; é resultado de constantes debates que buscam a formação de concertos comuns de interesses envolvendo aspectos político-sociais variados; busca soluções, através do desenho regional, para questões domésticas comuns aos países-membros, alcançando as demandas dos povos; extrapola o modelo liberal e o regionalismo aberto proposto pela Cepal, ao pensar a integração para além da liberalização e desregulamentação econômicas rumo à inserção internacional; reforça a histórica (e muitas vezes interrompida) busca pela autonomia da região, tanto com relação à condução política (doméstica e internacional) quanto com relação às propostas teóricas, ao pensamento; constitui-se, portanto, como uma ‘virada estratégica’ nos rumos da região, em um cenário internacional em transição, onde os polos de poder ainda estão se redefinindo.

É evidente que coexistem, na América Latina, projetos de integração de diferentes vertentes e objetivos. Assim, fazer avançar os consensos regionais em áreas estratégicas é um dos principais desafios colocados para a integração. Conforme afirmou Maximilien Arveláiz (2012, p. 5), então embaixador da Venezuela no Brasil, ao discutir os novos modelos de integração na América Latina:

Apesar da diversidade de orientação política dentro do espectro ideológico e das especificidades culturais, a maioria tem um objetivo prioritário: a erradicação da miséria e da pobreza, dívidas históricas de um passado comum – esse que não podemos esquecer, pois é também elemento estrutural de nossa união e integração.

Pensar estrategicamente a região e sua inserção política no mundo é fundamental para a superação dos obstáculos internos e exógenos que se erguem constantemente contra a consolidação regional latino-americana. O fato de não haver na América Latina nenhum país que possa assumir, de fato, o ônus (econômico e diplomático) que uma liderança regional exige e, por outro lado, a inexistência de instâncias supranacionais numa região caracterizada por vários arranjos institucionais intergovernamentais – conforme procuramos mostrar em outro trabalho (2012) – revela o árduo e importante caminho que a América Latina tem pela frente com relação à consolidação da região como instrumento importante para o desenvolvimento de seus povos e como um ator relevante nas relações internacionais.

———-

* Doutor em Ciências Sociais pela (Unicamp), Graduado em Ciências Sociais e Mestre em Sociologia pela Unesp Atua nas seguintes linhas: Processos de Integração Regional na América do Sul, Teoria das Relações Internacionais, Sociologia das Relações Internacionais. É membro do Regional Integration Research Group (Institute of Latin American Studies, Stockholm University). Líder do grupo de pesquisa Política Internacional e Processos de Integração, é Professor Adjunto IV do Departamento de Relações Internacionais e pesquisador do CEI/UFS e do NEPI/UFPE.

Referências

BIZZOZERO, L. América Latina a inicios de la segunda década del siglo XXI: entre el regionalismo estratégico y la regionalización fragmentada. Revista Brasileira de Política Internacional. Número 54, Volume 1, 2011.

BRICEÑO-RUIZ, J. & RIBEIRO HOFFMANN, A. Post-hegemonic regionalism, UNASUR, and the reconfiguration of regional cooperation in South America. Canadian Journal Of Latin American and Caribbean Studies, 2015. http://dx.doi.org/10.1080/08263663.2015.10314754. Acesso em 20/07/2015.

RIGGIROZZI, Pía. Region, Regionness and Regionalism in Latin America: Towards a New Synthesis. New Political Economy, 2011.

RIGGIROZZI, Pía and TUSSIE, Diana. The rise of post-hegemonic regionalism in Latin America. RIGGIROZZI, Pía and TUSSIE, Diana (Editors). The rise of Post-Hegemonic Regionalism: the Case of Latin America. United Nations University Series on Regionalism, Volume 4. London: Springer, 2012.

SANAHUJA, J. A. Regionalismo post-liberal y multilateralismo en Sudamérica: El caso de Unasur. In: Anuario de la Integración Regional de América Latina y el Gran Caribe, nº 9, 2012, p. 33.

——————————————————————————————————————————————————–

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *