Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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A produção científica em Relações Internacionais: da necessidade inclusiva de novas democratizações

Por Thales Castro*

democracia62_1A ciência das Relações Internacionais tem forte herança histórico-acadêmica do mundo anglo-saxão. Originária dos chamados “países centrais”, na concepção de Immanuel Wallerstein de sistema-mundo, a ciência das Relações Internacionais – ou mais simples e diretamente chamada de política internacional por Kenneth Waltz – muitas vezes reproduz os mesmos vícios e assimetrias encontrados nas dinâmicas sociais microssistêmicas, revelando, com gravidade, situações de subalternidade, de forçada pequenez e de menosprezo pelas ricas produções acadêmicas e intelectuais da periferia ou da semiperiferia.

Antes de tecermos algumas considerações mais detalhadas, convém explicitar que, como todo objeto gnosiológico humano, o conceito tricotômico centro-semiperiferia-periferia de Wallerstein nada mais é do que construção social manipulada com objetivos politicamente bem determinados. Não há isenção ou neutralidade axiológica em tais formulações, pelo contrário: muitas vezes, tais construções revelam e reproduzem conceitos prévios e discriminações acerca de produções acadêmicas que são gestadas na periferia ou na semiperiferia. Ou seja, nesta visão viesada, o locus da periferia ou da semiperiferia é e será o de recepção automática e de incorporação acrítica dos paradigmas gerados no centro onipresente. Não há diálogo pleno e inclusivo; a relação acadêmica torna-se assimétrica, viesada e unidirecional do centro para a semiperiferia e para a periferia. O locus da periferia e da semiperiferia vai sendo, portanto, forjado, pelos ideólogos centralistas, para manutenção do status quo, perpetuando situações de subalternidade e de dominação maquiavelicamente manipulada. Em síntese, temos o locus como sempre gerador de dinâmica da polis hobbesiana, atrelada à “naturalidade” do sistema-mundo perpetrador de hegemonias. Teríamos, então, a criação artificial de nova forma de raison d’état acadêmico-intelectual, rejeitando os potenciais e ricos legados da periferia e da semiperiferia, pois o locus situacional geográfico acabou por rotular e determinar sua situação de subalternidade e pequenez, o que certamente é profundamente lastimável.

No campo das Relações Internacionais, tal realidade é verificada de maneira sorrateira com leves tônicas de continuidade ferrenha deste panorama. Observamos, com satisfação, que a reação mais comum a tais situações perversas é a do fortalecimento da corrente acadêmica do Sul Global, tomando emprestadas as contribuições seminais de Boaventura de Sousa Santos (Epistemologia do Sul), ou ainda da corrente, ainda minoritária, infelizmente, do pós-colonialismo, que, devo enfatizar, não só pertence às Relações Internacionais. O pensamento pós-colonial está presente, de maneira robusta, na literatura, na sociologia, na antropologia e, certamente, em outros campos das ciências humanas. Com efeito, entendo ambas as dinâmicas como essenciais a uma maior democratização inclusiva ao pensamento e à práxis das Relações Internacionais, embora eu, particularmente, não adote nenhuma das duas posturas acadêmicas como minhas nas minhas andanças de produção intelectiva nesta seara teórica. Redefinir orientações e direcionalidades acadêmicas torna-se, desta forma, crucial!

As Relações Internacionais, como campo científico e como agir praxeológico e intelectivo amplo, democrático e inclusivo, deve espelhar o mosaico complexo (e belo) da sociedade internacional, reduzindo, cada vez mais, as pechas oriundas da relação unilateral centro – semiperiferia e periferia. Essas pseudoformulações devem ceder lugar a novas realidades e novas democratizações, fortalecendo a riqueza das contribuições do Sul Global ou do pós-colonialismo. Advoguemos essa causa e partilhemos essas novas posturas como forma de, gradativamente, quebrarmos esses grilhões invisíveis (ou visíveis) de dominação hegemônica intelectual do centro onisciente (sic).

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* Doutor em Ciência Política (UFPE); Mestre e Graduado em Relações Internacionais (Indiana University of Pennsylvania). Assessor Internacional e Professor da UNICAP, é Coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Damas, Cônsul de Malta em Recife e Presidente da Sociedade Consular de Pernambuco.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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