Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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A aversão ao feminismo em RI e o desconforto que temos em relacionar mulher a poder*

Por Mariana Meneses**
Rodrigo Barros de Albuquerque***

feminismo

“Toda teoria é sempre para alguém e com algum propósito” (COX, 1981).

A disciplina de Relações Internacionais nasceu e se consolidou debruçada sobre a esfera pública, historicamente dominada por homens. Parece ser senso comum para a maioria dos acadêmicos de RI que o estudo da política internacional necessariamente compreende o estudo de Estados unitários ou da economia mundial. Mas o que acontece quando se propõe a análise de questões internacionais sob a perspectiva do indivíduo, ou do ponto de vista de Estados marginalizados, ou focando em grupos minoritários e oprimidos? De maneira geral, teorias que fogem à regra ao questionarem conceitos clássicos das RI, como poder e Estado, e desafiam de alguma maneira o status quo são rejeitadas pelo público da área.

Bromley (2012) traz o conceito de backlash enquanto uma “reação agressiva e violenta a mudanças sociais que desafiam o status quo” (p. 33), um fenômeno, em suas mais variadas formas, de resistência a mudanças que coloquem em risco privilégios daqueles que dominam. Esse fenômeno é, assim, de fácil verificação na aversão ao feminismo e a outras perspectivas críticas de RI, bem como na realidade brasileira. À medida que discussões sobre feminismo se intensificam sobretudo nas redes sociais na atualidade, nota-se um movimento contrário na esfera pública, em uma onda conservadora que ganha força num momento percebido como crise política por parte da população.

As mudanças defendidas pelas feministas na vida cotidiana, na esfera pública e no campo das RI se relacionam à concepção de Scott (1986) de gênero enquanto forma primária de construção de hierarquias, através de instituições econômicas e políticas, responsáveis por naturalizar e legitimar o status inferior feminino. Arlene Tickner (2008) acredita que quando mudamos a perspectiva do centro tradicional para a periferia (aqui, subjetivamente compreendida como tudo aquilo que é marginalizado), novos problemas surgem. Conceitos como soberania nacional e anarquia internacional são colocados de lado, uma vez que a forma como essas acadêmicas interpretam o internacional não leva em conta as ações de um Estado unitário, mas indivíduos contextualizados política, econômica e socialmente.

A dicotomia público-privado e sua associação ao homem e à mulher, respectivamente, esconde, como coloca Biroli (2013), uma forma de confinação da mulher ao doméstico, negando a ela participação no mundo da política. Para mais além, J. Ann Tickner (1997) defende que as noções de natureza humana e justiça universal levam em consideração apenas a experiência de um grupo, a elite masculina. A defesa, assim, de padrões universais mascara formas efetivas de opressão, uma vez que tais padrões são definidos por homens interessados na manutenção de sua posição de privilégio.

Contudo, as justificativas dadas por acadêmicos clássicos às críticas ao feminismo em RI, em muitos casos, remetem ao rigor metodológico e são embebidas nas suas concepções viciadas de validade epistemológica. A maior parte das feministas que se debruçam sobre o estudo das RI se declara pós-positivista, nos termos definidos por Lapid (1989). Para elas, é impossível compreender questões sensíveis ao gênero através de epistemologias construídas a partir de perspectivas que valorizam características socialmente associadas ao homem, como racionalidade e objetividade e a separação público-privado, de maneira que privilegiam estudos baseados em tradições históricas, hermenêuticas, humanísticas e filosóficas de conhecimento.

No entanto, Hansen (2010) esclarece que o afastamento de métodos quantitativos e empíricos não é um pré-requisito para a construção de conhecimento sensível ao gênero, de maneira que tais justificativas encontram dois problemas: de um lado, invalidam estudos feministas como um todo partindo de um pressuposto equivocado de unidade epistemológica feminista pós-positivista e, de outro, deslegitimam qualquer forma de construção de conhecimento que não aquele útil à sua própria perspectiva teórica.

A inflexibilidade com que acadêmicos adeptos de tradições clássicas de RI recebem teorias críticas é o reflexo, na academia, da inflexibilidade que as mulheres encontram nas estruturas e instituições sociais quando buscam inserção e visibilidade. A negação da validade e do acesso à legitimidade das produções feministas em RI, de maneira análoga, reflete a resistência encontrada pela mulher na busca pelo acesso ao poder, nas suas mais diversas concepções, na sociedade.

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* Este trabalho foi desenvolvido como parte de uma pesquisa PIBIC em andamento intitulada “A atuação da União Europeia no combate à mutilação genital feminina na Europa”, sob orientação do Prof. Dr. Rodrigo Barros de Albuquerque.

** Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Sergipe, membro do Centro de Estudos Internacionais (CEI/UFS) e bolsista PIBIC/FAPITEC.

*** Doutor em Ciência Política (UFPE), professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (DRI/UFS), líder do Centro de Estudos Internacionais (CEI/UFS), pesquisador e vice-líder do Núcleo de Estudos em Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI/UFPE).

Referências:

BIROLI, Flávia. Autonomia e desigualdades de gênero: contribuições do feminismo para a crítica democrática. Vinhedo: Ed. Horizonte, 2013.

BROMLEY, Victoria L. Feminisms matter: debates, theories, activism. Toronto: University of Toronto Press, 2012.

HANSEN, Lene. Ontologies, Epistemologies and Methodologies. In SHEPHERD, Laura J. (Ed.). Gender matters in global politics: a feminist introduction to International Relations. London: Routledge, 2010.

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One Comment

  • […] Em texto anterior, defendemos a incorporação da análise feminista à disciplina de Relações Internacionais enquanto necessária dentro do processo de empoderamento feminino. Uma leitora convencida de tal importância pode, contudo, indagar: mas e como fazê-lo? Pretendemos, portanto, com o presente texto, elucidar algumas formas de como inserir perspectivas sensíveis ao gênero nos estudos da área. […]

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