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A guerra do Iêmen e o papel da Arábia Saudita

Por Antonio Henrique Lucena Silva*

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As negociações de paz para por fim ao conflito no Iêmen iniciadas há cinco dias, em Berna, Suíça, serão retomadas em 14 de janeiro do próximo ano. Não houve consenso entre as partes para se chegar a um acordo. Os combates se intensificaram na província de Jawf, na fronteira com a Arábia Saudita, entre as forças apoiadas por Riad e os rebeldes xiitas houthis. Desde março a Real Força Aérea Saudita têm realizado bombardeios tanto na capital do Iêmen, Sana’a, como no interior do país. Segundo a ONU, a guerra já deixou 6.000 mortos e 28.000 feridos. Nomeada inicialmente de “Operação Tempestade Decisiva” a campanha militar saudita ainda não levou, ironicamente, a uma definição da guerra. Os houthis já travaram seis guerras contra o governo desde 2004 e obtiveram sucesso nos combates contra os sauditas em 2009-2010. O governo saudita teme que um fortalecimento dos houthis no país também signifique uma maior participação de Teerã na região. Tal movimento é inaceitável para os sauditas.

Ao que parece, combater no país não têm sido fácil. Historicamente, os embates travados dentro do país mobilizaram muitos recursos, mas sem que houvesse uma significativa melhora de situação política ou estratégica. Quando ela ocorreu, foi frágil. O Iêmen foi dividido entre os Impérios Otomano e Britânico no início do século XX. O Reino Mutawakkilite do Iêmen foi estabelecido após a Primeira Guerra Mundial, sendo que o Iêmen do Norte tornou-se a República Árabe do Iêmen, em 1962, enquanto o Iêmen do Sul continuou a ser um protetorado britânico até 1967. O Presidente Nasser do Egito enviou tropas ao país em uma tentativa de apoiar o novo regime revolucionário em setembro de 1962, em um golpe militar contra o Imã Muhammed Al-Badr. A oposição dos “monarquistas” ao novo regime era apoiada pela Arábia Saudita, que proveu os defensores do regime com dinheiro, armas e bases, enquanto a Jordânia enviou militares para aconselhamento. Os egípcios tinham se comprometido em uma campanha de 3 meses, mas se encontraram em uma situação intratável que perdurou durante muito tempo[i].

As operações iniciais ocorreram em outubro e novembro de 1962 e a tentativa de controlar o país inteiro fracassou devido à forte resistência da oposição. Para se resguardar dos ataques dos monarquistas, o número de tropas egípcias em território iemenita saltou de 15 mil para 36 mil no inverno de 1963. As comparações com o ambiente vietnamita são inevitáveis: os defensores da monarquia tinham bases na vizinha Arábia Saudita (equivalente ao Vietnã do Norte) e, supridos dessa região, fizeram bom uso de terreno e realizaram emboscadas. O Egito, como os americanos na Guerra do Vietnã, tinham o controle do ar, que usavam para bombardeios, ataque ao solo e mobilidade. Em 1964 as forças egípcias atingiram 50 mil soldados. No ano seguinte, mesmo tendo aumentado as tropas para 70 mil homens, as forças egípcias continuavam tendo problemas para responder a emboscadas que cortavam os seus suprimentos e deixavam muitas de suas posições isoladas e vulneráveis.

Os egípcios tentaram negociar em agosto de 1965: o Presidente Nasser e o Rei Faysal da Arábia Saudita assinaram os acordos de Jeddah em que eles parariam de fornecer ajuda aos seus protégés e, em 1966, haviam apenas 20 mil soldados egípcios no Iêmen. No entanto, a dificuldade de relacionamento e a consequente falha nas conversações de paz entre os republicanos e os monarquistas prejudicaram o restabelecimento da normalidade na região.

Com a vitória total de Israel contra as forças egípcias no Sinai em junho de 1967, uma pressão pela evacuação do Iêmen aumentou, devido à necessidade das forças se concentrarem em um futuro conflito com os israelenses. Os egípcios deixam o país e, estrategicamente, os republicanos conseguem ser mais resilientes no conflito, defendendo Sana’a do cerco do inverno de 1967-1968. O apoio saudita para a paz pôs um fim à guerra e levou à formação de um governo de coalizão em 1970. Os estágios da guerra foram muito diferentes do Vietnã do Sul. A unificação do país veio ocorrer em 22 de maio de 1990, com a junção da República Árabe do Iêmen (Iêmen do Norte) e a República Democrática do Iêmen (ou Iêmen do Sul), formando a República do Iêmen.

A partir de 2001, logo após os atentados de 11 de Setembro, houve um aumento da repressão no país, como parte da Guerra ao Terror contra a Al-Qaeda e os grupos afiliados no país. O recrudescimento aconteceu em janeiro de 2010, quando o governo do Iêmen declarou uma guerra aberta contra a organização fundamentalista islâmica. A Al-Qaeda, na Península Arábica (AQPA), têm usado a instabilidade política nacional para se consolidar no país. Os combates contra a Al-Qaeda se intensificaram após a Primavera Árabe e o transcorrer da Revolução Iemenita em 2011. Os indivíduos protestaram contra o desemprego, entre outras questões, e exigiram a renúncia do presidente Ali Abdullah Saleh[ii], que estava no cargo desde 1990. O Iêmen é um dos países mais pobres do mundo e, de acordo com fontes oficiais dos serviços de inteligência, se tornou um refúgio para militantes islâmicos da Al-Qaeda. Isso também têm atraído a atenção de Washington para o conflito.

O bombardeio incessante feito pela Real Força Aérea Saudita não apresentou o resultado esperado. Ainda é prematuro dizer quais serão os rumos da guerra no Iêmen, assim como o processo de paz. Acomodar todos os atores, desde os Houthis até defensores do governo, ainda com a AQPA como elemento desestabilizador, não parecer ser uma tarefa das mais simples. Em novembro, a Arábia Saudita requisitou aos EUA mais 17,000 bombas para seu possível uso em território iemenita. Caso as negociações de paz falhem, Riad está disposta a continuar lutando por sua área de influência na esfera regional.

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* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Professor de Relações Internacionais da Faculdade Damas da Instrução Cristã. Atua na área de Segurança Internacional, Estudos Estratégicos e Política Internacional. E-mail para contato: antoniohenriquels@gmail.com.

[i] BLACK, Jeremy. Introduction to Global Military History: 1775 to the present day. Nova Iorque: Routledge, 2005.

[ii] AL JAZEERA. Thousands in Yemen march against Saleh, 25 de março de 2011. Acesso em 18 de dezembro de 2015.

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