Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Brexit?

Por Marcelo de Almeida Medeiros*

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O Reino Unido é um dos membros mais importantes entre os vinte e oito que compõem a União Europeia (UE) hoje. Apesar dessa condição, o atual Primeiro Ministro britânico, David Cameron, em sua campanha eleitoral, engajou-se, junto aos súditos de Sua Majestade Elizabeth II, a efetuar um referendum até o final de 2017. Tal referendum pretende indagar sobre se vale a pena ou não permanecer como parte desse projeto político europeu iniciado com o Tratado de Roma em 1957.

É verdade que o euroceticismo de Londres é antigo. O Reino Unido não é membro fundador da UE, tendo por vários anos capitaneado um outro projeto de regionalização bem menos ambicioso em termos políticos, ancorado essencialmente em uma lógica de livre comércio. Tratava-se do European Free Trade Agreement (EFTA). Todavia o peso das economias alemã e francesa, por um lado, e as contingências políticas impostas pela guerra fria, por outro, estimularam o governo britânico a, em 1973, ingressar na então Comunidade Econômica Europeia.

Desde então, o Reino Unido vem, no seio do processo de regionalização da UE, assumindo uma postura de excepcionalidade que destoa do diapasão franco-alemão de uma integração cada vez mais profunda entre os povos. Ele parece ter adotado uma estratégia que poderia ser alcunhada de Cavalo de Troia, na medida em que tenta, enquanto membro, solapar as tentativas de robustecimento das instituições e práticas comunitárias. Por exemplo, através de uma dinâmica de opt-out, Londres não participa do Espaço Schengen, que estabelece um controle unificado das fronteiras externas da UE, como também não adota o Euro, moeda comum, abraçada pelos Estados partícipes economicamente fortes.

A escalada terrorista, assim como a crise econômica persistente dos últimos anos, levaram a um recrudescimento dessa automarginalização e postura eurocética do Reino Unido. As forças extremistas, tanto de direita quanto de esquerda, minaram o terreno dos tradicionais partidos centristas britânicos, o Trabalhista e o Conservador, fazendo com que eles optassem por acolher uma agenda nacionalista que convive mal com os princípios comunitários propostos por Bruxelas. Possivelmente foi esta atitude, materializada, entre outras, na proposta do referendum, que contribuiu para o partido Conservador ganhar as últimas eleições.

Todavia, apesar do risco do Brexit, é provável que o governo de David Cameron, pressionado pelas forças econômicas-financeiras da City, trabalhe para moldar a UE segundo seus interesses, mas se esforce para que o Reino Unido possa continuar no seio do processo de regionalização. Os mandatários de Sua Majestade sabem que os custos da saída seriam, provavelmente, mais altos do que aqueles envolvendo a permanência. Em suma, o referendum pode ser entendido como um vetor estratégico que, internamente, contribuiu para a vitória dos Conservadores, ao mesmo tempo em que, externamente, coloca Downing Street em uma situação de negociação contingenciada que, em certa medida, fortalece o Reino Unido perante seus parceiros comunitários.

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* Doutor em Ciência Política (Institut d’Etudes Politiques de Grenoble) e Livre-Docente em Ciência Política pelo Institut d’Etudes Politiques de Paris – Sciences Po. É Professor Associado de Ciência Política do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Bolsista de Produtividade em Pesquisa – Nível 1D do CNPq, Líder do Núcleo de Estudos de Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI/UFPE), Co-Coordenador  da Área Temática Política Internacional da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e Co-Coordenador do Grupo de Trabalho Política Internacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS).

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