Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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O Process Tracing e o teste de hipóteses*

Por Júlio César Cossio Rodriguez**

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A postagem anterior no blog fez a defesa inicial da aplicação nas RI do Método Histórico-Comparativo (MHC). Para isto, tratou de demonstrar quais são os passos iniciais para a sua aplicação. Nesta postagem aborda-se um dos instrumentos principais do MHC: o mapeamento de processos ou process tracing. Este serve, segundo David Collier (2011), para identificar a partir de rastros de evidências, principalmente históricas, uma sequência lógica de eventos, suas causas e quais são os mecanismos que ligam as causas encontradas aos resultados. Portanto, é um instrumento muito utilizado por acadêmicos que sustentam seus argumentos em evidências históricas. Outro aspecto central deste instrumento é que ele permite o teste das hipóteses causais do trabalho. Na literatura especializada sobre o MHC e sobre o mapeamento de processos, figuram quatro testes principais, aos quais tais evidências devem ser submetidas[1]. Apenas após estes testes é que se avaliam os seus efeitos sobre as hipóteses causais.

O primeiro passo para uso deste instrumento consiste na identificação clara das hipóteses causais do trabalho, que derivam ou das teorias às quais o trabalho se filia, ou de explicações rivais. As evidências, então, são buscadas ao longo do mapeamento de processos, isto é, ao longo do estudo em detalhes do caso em questão. Após este detalhamento, deve ser feita a clarificação das hipóteses (principais e rivais), pois isto é importante para a aplicação dos testes. Destaca-se que em geral tais testes produzem efeitos sobre os dois tipos de hipóteses. Isto ficará mais evidente após a definição abaixo dos testes e de suas implicações às hipóteses.

O primeiro tipo de teste, Straw-in-the-Wind, é o mais fraco deles e apenas serve para fortalecer ou enfraquecer as hipóteses. Desta forma, não elimina nem as principais nem as rivais. As evidências encontradas, logo, apontam apenas na direção das causas principais, sem uma comprovação cabal. As evidências sugerem que tal mecanismo causal ocorreu e, por isso, há um tipo específico de resultado. Em suma, ao passar por este teste, isto é, se as evidências dão conta de sugerir que tal processo causal ocorreu, a hipótese principal se fortalece. Se não passa por este teste, ou seja, se não foram encontradas ao longo do process tracing evidências que sugerem a relação entre a causa e o efeito estudados, esta hipótese é enfraquecida, mas não eliminada. Os efeitos sobre as hipóteses rivais são opostos, logo, quando a principal não passa neste teste, há o fortalecimento da hipótese rival.

O segundo tipo de teste, Hoop test, relaciona-se mais com a eliminação de hipóteses rivais do que com a confirmação da hipótese central. Assim, necessita aqui de evidências mais fortes do que aquelas utilizadas no teste anterior, mas não tão fortes ao ponto de comprovarem de forma decisiva a hipótese central. Contudo, elas devem afetar diretamente as hipóteses rivais, eliminando-as do jogo. Para aplicar este tipo de testes, o process tracing deve apontar que não existem evidências sobre as hipóteses rivais e que há traços de evidências que sustentam parcialmente a principal. Ou que foram encontradas evidências que sustentem a eliminação das hipóteses rivais, o que apenas sugere que a principal é válida.

O terceiro tipo de testes, Smoking Gun test, está mais vinculado à comprovação forte da hipótese principal, pois as evidências apresentadas dão conta de validá-la. Porém, em oposição ao teste anterior, não elimina as hipóteses rivais, apenas as enfraquece. O mapeamento de processos, neste caso, deve encontrar evidências fortes de que aquela hipótese causal produz os resultados esperados. O nome do teste é sugestivo e dialoga com a “criminologia”, pois a existência de um revólver fumegante nas mãos de um suspeito, que está presente na cena de um crime, é evidência forte de que ele é o seu responsável. Todavia, até a execução da perícia, não há confirmação se a bala que saiu do revólver do suspeito foi a causa suficiente para o crime. Por seu turno, a comprovação das hipóteses de forma decisiva e a eliminação das hipóteses rivais dão-se pela aplicação do quarto tipo de teste.

O quarto tipo é então denominado de Double Decisive test e consiste no teste mais forte a ser aplicado às hipóteses. Contudo, evidências que sejam suficientemente fortes para validar a hipótese central e ao mesmo tempo permitam eliminar as rivais são raras nas Ciências Sociais. Usando o exemplo anterior, a evidência central sobre um crime com arma de fogo, viria das perícias da bala e da arma e da autópsia do corpo. Se todos estes elementos estiverem presentes, eliminam-se as outras hipóteses e confirma-se a principal. Nas ciências sociais, estas evidências, em geral, provêm de fontes documentais que se ligam diretamente ao mecanismo causal em estudo.

Enfim, os estudos que utilizam o Método Histórico-Comparativo e se valem do instrumento do mapeamento de processos para busca de evidências devem dialogar com os testes de hipóteses acima descritos, pois é a partir deles que se qualificam os estudos e aumenta-se o grau de robustez das metodologias qualitativas como o MHC. Em suma, a clareza sobre as hipóteses principais e sobre as rivais do trabalho é fundamental para a boa aplicação dos testes relativos ao mapeamento de processos e, por conseguinte, do adequado uso do MHC.     

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* Esta coluna baseia-se em estudos realizados sobre o MHC do autor em conjunto com o Prof. Octavio Amorim Neto (FGV).

** Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia/Ciências Sociais e de Política Internacional Contemporânea na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Doutor em Ciência Política (Universidade de Lisboa), Mestre em Ciência Política (UFRGS) e Bacharel em Relações Internacionais (UFRGS). Pesquisador Associado do Centro Internacional de Estudos sobre Governo (CEGOV/UFRGS).

[1] Esta definição dos testes baseia-se em: COLLIER, David. Understanding process tracing. PS: Political Science & Politics, vol. 44, n. 4, p. 823-830, 2011; VAN EVERA, Stephen. Guide to Methods for Students of Political Science. Ithaca, NY: Cornell University Press, 1997; MAHONEY, James. The Logic of Process Tracing Tests in the Social Sciences. Sociological Methods & Research, v. 41, n. 4, p. 570-597, 2012.

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