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O Brasil e a crise: o internacional importa?

Por Cinthia Campos*

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Essa simples palavra de cinco letras tem dominado os noticiários nos últimos meses e muito se questiona se estamos diante de uma crise política reverberando na economia, ou seria de fato uma crise econômica implicando na estabilidade política. Provavelmente ambas estão conectadas, reforçando-se mutuamente. No entanto, pouco se questiona sobre o papel do sistema internacional na crise econômica nacional. Se a crise de 2008 iniciada nos Estados Unidos não afetou o Brasil como afetou outras nações, como apontam alguns analistas, quais seriam então as causas da turbulência atual?

Em clássico texto de 1977, Keohane & Nye buscavam entender de que forma as nações estão interligadas no sistema internacional, em uma tentativa de estabelecer parâmetros mínimos para mensurar as assimetrias entre as principais potências. Segundo os autores, a partir do conceito de interdependência complexa, entende-se que eventos que ocorram em uma determinada nação podem em alguma medida afetar outra. Há duas formas de aferir o grau de interdependência entre dois ou mais países: sensibilidade e vulnerabilidade. No primeiro, parte-se do pressuposto de que todos os Estados são sensíveis ao que acontece no mundo. A diferença entre eles se estabelece na capacidade de cada potência em se recuperar dos eventuais efeitos da interdependência. Outra contribuição importante é relativizar o componente militar como principal termômetro de poder no sistema internacional. Para os autores, não há uma hierarquia clara de agenda, em que a sensibilidade dos países pode variar de acordo com a temática.

Dito isto, os Estados mais poderosos no sistema internacional seriam aqueles com baixo nível de sensibilidade e menos vulneráveis ao maior número de matérias possível. Nesse quadro, a crise internacional de 2008 que atingiu o sistema bancário norte-americano afetou principalmente membros da União Europeia, a exemplo de Grécia, Portugal, Espanha e Itália. Ajustes fiscais e planos de austeridade entraram na agenda europeia, que apenas muito recentemente começou a demonstrar sinais de recuperação. No entanto, segundo o último relatório do Banco Mundial, intitulado Global Economic Prospects: the global economy in transition, lançado em outubro deste ano, a atual crise que o Brasil enfrenta não seria ocasionada diretamente pelo contexto de 2008, e sim pela queda no preço das commodities, bens primários de baixo valor agregado, mas que tiveram preços impulsionados pela demanda do mercado chinês. O relatório aponta que a desaceleração da economia chinesa prejudicou Estados que concentravam suas exportações nesse tipo de produto, em especial o Petróleo. No gráfico abaixo, é possível entender como os países antes considerados emergentes e quase imunes à crise de 2008 viram suas economias se enfraquecerem. Em todos eles, menos na Índia, há um decréscimo dos mercados.

Gráfico 1 – Previsões de Crescimento dos Mercados Emergentes

grafico 1

Fonte: Banco Mundial, 2015.

No que concerne às economias da América Latina, a instabilidade econômica não é exclusividade brasileira. Dependente da exportação de petróleo, a Venezuela certamente é a mais atingida pela queda no preço do produto no mercado internacional. Segundo projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI), o país deve enfrentar uma inflação acumulada de 210% já em 2016. Já os demais membros do Mercosul também enfrentam incertezas tanto no campo da política, com o enfraquecimento da esquerda no Brasil e na Argentina, quanto na economia. Abaixo, temos um segundo gráfico elaborado com base nos dados do Banco Mundial (2015), que constatam que apesar das assimetrias entre seus membros, estes estão muito próximos no que tange à instabilidade no crescimento econômico.

Gráfico 2 – Crescimento do PIB – Mercosul.

crescimento pib mercosulFonte: Elaboração da Autora, 2015.

Ainda segundo o relatório do Banco Mundial, a expectativa de recuperação dessas economias é apenas para a partir de 2017. Contudo, conjunturas específicas podem retardar essa recuperação. No caso específico do Brasil, o documento aponta que a crise política interna pode deixar o país mais instável, em que os mais recentes casos de corrupção envolvendo grandes empresas diminuem a confiança do mercado internacional na economia brasileira.

Claro está que a fronteira entre o espaço doméstico e o internacional está cada vez mais diluída. Tentar entender a crise atual sem um parâmetro comparativo com as outras nações enfraquece qualquer análise que busca identificar quais são os fatores latentes que colocam o Brasil em uma posição mais vulnerável.

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* Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco. Bolsista do Programa Nacional de Pós-doutorado/CAPES; membro do Núcleo de Política Comparada e Relações Internacionais/ UFPE; do Preator/UFPE e do Centro de Estudos Internacionais/UFS. Este texto faz parte de artigo a ser publicado na próxima edição da Política Hoje/UFPE.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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