Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Cratologia: o poder como enigma, meio e fim das Relações Internacionais

Por Thales Castro*

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Poder é um conceito multifacetado e em constante mutação que permite a um determinado Estado ter seus interesses sobrepostos aos demais Estados, ou quaisquer outros atores internacionais, pelo uso de ameaça (poder potencial) ou mesmo de efetivação de conflitos armados e demais instrumentos coercitivos (poder atual). Poder é energia cinética de relevância nas engrenagens internacionais; é fonte de discórdia e é nascedouro de conquistas; é, ademais, essência dinâmica do estudo da política internacional. Contudo, poder, isoladamente, não é criado em um vácuo nem possui senhorios perpétuos para seu domínio.

Dentre as muitas definições de poder, optou-se aqui pela definição de poder mais voltada para o cenário político-decisório internacional na obra de Rosati: “a capacidade de influenciar o ambiente circundante na maneira como se assim prefere e determina.”[1] Para Bertrand Russell, “poder consiste na produção de efeitos desejados.”[2] Rosen & Jones definem poder como: [3]

The ability of an actor on the international stage to use tangible and intangible resources and assets in such a way as to influence the outcomes of international events to its own satisfaction.

O conceito de poder como categoria universalmente válida no cerne do realismo político (também referido por realismo neoclássico) estruturado em seis princípios de Morgenthau pode ser sintetizado, à guisa de conceituação, da seguinte maneira:[4]

O poder pode abarcar tudo que estabeleça e mantenha o controle do homem sobre o homem. Assim, o poder engloba todos os relacionamentos sociais que se prestam a tal fim, desde a violência física até os mais sutis laços psicológicos mediante os quais a mente de um ser controla uma outra.

Aron concebe poder diferenciando-o a partir do termo em francês pouvoir (mais associado ao poder atual) do termo puissance (mais associado à concepção de potência), como também usa a língua alemã para tecer semelhante análise com o termo macht e herrschaft. Sendo língua neolatina, o francês vai utilizar a diferença pontual do potere para o potestas indicando a mesma correlação. No grego clássico, o termo dýnamis (dynamis) se aproxima do usufruto do poder atual, porém possui diferenças bem marcantes com o termo exousia (exousia) que está próximo do conceito de “autoridade”. Ou seja, poder e senhorio – no termo germânico – ou ainda poder e domínio e autoridade, embora semanticamente próximos, possuem sutis diferenças no que concerne ao grau e à esfera de abrangência dos mesmos. Para Aron, “poder ou potência é a capacidade de fazer, produzir ou destruir” e também de “influir sobre a conduta ou os sentimentos dos outros indivíduos”. Ainda nessa mesma tônica, Aron vai mais adiante ao explicitar tais observações aplicando-as ao campo das RI:[5] “No campo das relações internacionais, poder é a capacidade que tem uma unidade política de impor sua vontade aos demais. Em poucas palavras, poder político não é um valor absoluto, mas uma relação entre os homens.” .

Assim, pode-se asseverar que, quando determinado país exerce tamanha influência e persuasão que altera o comportamento de outro Estado soberano por meio de mecanismos de trocas, de recompensas ou mesmo de coação, então há uma clara relação de poder por onde perpassam elementos como o controle e a dominação de forma aberta ou mais velada. Controle e dominação de que ou sobre o quê? Tendo como pressuposto o sentido de incremento da utilidade presente na cratologia, controle e domínio se dariam sobre os ativos disponíveis – tangíveis e intangíveis – da política internacional no campo dos recursos energéticos, controle sobre os demais atores e sobre os resultados esperados e calculados.

Repensando os cânones clássicos das ciências contábeis e aplicando-os à esfera internacional, um ativo, no sentido cratológico, é aqui neste blog definido como meios e recursos materiais e imateriais à disposição que trazem benefícios ao ator internacional, servindo como elemento de consecução de mais controle e domínio sobre outros segmentos da interação externa. Um ativo de poder representa um crédito, um exigível de um terceiro ator internacional como parte da moeda de troca do jogo de favores e de influências bem calculadas das Relações Internacionais.[6]

Nesse mesmo segmento, um passivo de poder significa, por seu turno, um endividamento material ou imaterial; uma necessidade de resposta ao exigível de terceiro(s). No caso da intervenção anglo-americana no Iraque após março de 2003, por exemplo, percebeu-se o exercício militar sob a égide da doutrina Bush de setembro de 2002 de autodefesa antecipatória e guerra preventiva como forma de aumentar o controle e domínios dos ativos ali disponíveis.[7] O cálculo utilizado de forma viesada pelos hawks (falcões) da política externa neoconservadora norte-americana foi o de manipular a intervenção, um tanto questionada legal e legitimamente, como meio de domínio e controle dos ativos de poder no Iraque, na forma de acesso às imensas reservas de petróleo e gás com contratos de prospecção e exploração privilegiados.[8] Esse cálculo talvez tenha subestimado o expressivo passivo de poder gerado no interior do sistema multilateral, em especial, no eixo da Aliança Atlântica da OTAN com inflamados sentimentos mundiais de antiamericanismo.[9]

Portanto, à guisa de comentários inaugurais da coluna neste blog, devo salientar que, no processo de gestão do poder como meio de controle e domínio, observa-se a redução da soberania do Estado nacional em razão da obediência, subserviência ou respeito ao país que executa o fluxo majoritário na relação de poder. Poder é uma forma de mitigação da liberdade da soberania estatal. Há, portanto, uma forma de violação consentida pelo ator internacional que sofre, diretamente, o fluxo de poder, de influência e de pressões, tendo como meio de intermediação a lógica de troca de ativos e passivos de poder entre os atores internacionais. Muitas são as consequências e reflexões destas provocações iniciais suscitadas nesta primeira contribuição nossa.

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* Doutor em Ciência Política (UFPE); Mestre e Graduado em Relações Internacionais (Indiana University of Pennsylvania). Assessor Internacional e Professor da UNICAP, é Coordenador do curso de Relações Internacionais da Faculdade Damas, Cônsul de Malta em Recife e Presidente da Sociedade Consular de Pernambuco.

[1] ROSATI, J. The politics of the United States foreign policy. Fort Worth, Harcourt Brace, 1993. p. 95

[2] BOBBIO, Norberto. Estado, governo, sociedade: para uma teoria geral da política. Op. cit. p. 77.

[3] JONES, Walter; ROSEN, Steven. The logic of international relations. Op. cit. p. 229.

[4] MORGENTHAU, Hans. Política entre as Nações: a luta pelo poder e pela paz. Op. cit. p. 18.

[5] ARON, Raymond. Paz e Guerra entre as nações. Op. cit. pp. 99-101.

[6] O fluxo dinâmico da cratologia salienta como se estrutura a moeda de troca internacional por meio do favor e da influência interessada, tornando-os substratos do polo credor (ativo de poder) e do polo devedor (passivo de poder) com os limites fáticos dos capitais de força-poder-interesse disponíveis.

[7] WEINBERGER, Eliot. Crônicas da Era Bush: O que ouvi sobre o Iraque. Rio de Janeiro, Record, 2006. pp. 153-160.

[8] JACKSON, Robert; TOWLE, Philip. The temptations of power: The United States in global politics after 9/11. Nova Iorque, Palgrave Macmillan, 2006. pp. 16-36.

[9] BRIGHTMAN, Carol. Insegurança Total: o mito da onipotência americana. Rio de Janeiro, Record, 2006. pp. 71-105.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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