Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Montando o puzzle para a pesquisa em Relações Internacionais.

Por Augusto Teixeira Jr.*

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Se o “fazer” científico é um processo laborioso, produção de uma forma de aprender diferenciada de outras formas do saber, ciência não se faz sem método. Desta forma, se estabelece um aparente estranhamento: como produzir conhecimento com métodos e abordagens qualitativas, mas com rigor metodológico?

Além do debate sobre qual o objeto das RI, discutido por Cinthia Campos em “Os desafios da pesquisa em Relações Internacionais”, surge outro desafio para além da delimitação do campo: como apreender a realidade internacional? No que seria o nosso “calcanhar metodológico”, verifica-se às vezes a ausência de estratégias robustas de pesquisa, boa relação entre o que se quer saber e como saber. Esta deficiência, ligada ao low profile da metodologia em detrimento da teoria, se apresenta por exemplo em Trabalhos de Conclusão de Curso a partir de parcos aportes metodológicos apresentados por sequências frasais como “a metodologia desta trabalho é qualitativa, exploratória, descritiva e indutiva [etc]”. É importante pontuar com firmeza: a falta de método, desenho de pesquisa e técnica não é culpa da vertente qualitativa de pesquisa. Dito isto, coloca-se uma questão urgente: como resolver?

Qual é a sua variável dependente?

            Um primeiro desafio, talvez a origem de todos os problemas, reside na “Variável Dependente”, explanandum ou simplesmente o que se quer saber/explicar. Uma coisa é ter um tema outra coisa é ter um objeto delimitado; outra bem diferente é ter um problema de pesquisa. Uma parte significativa dos trabalhos peca em não expor com clareza o que se quer explicar. Afinal, num texto como um TCC, com pequeno número de páginas, acesso limitado a dados, baixo nível de treinamento em técnicas e restrições de tempo; como justificar querer “abraçar o mundo”? É de fundamental importância incorporar dois preceitos: humildade e delimitação. Apesar da realidade social e internacional ser fascinante o jovem pesquisador terá toda a carreira para encarar a sua complexidade. Por que razão se justifica querer acabar com a festa já no TCC ou na dissertação? A humildade se processa quando o pesquisador delimita o seu objeto. Quando ele busca um equilíbrio entre um bom problema de pesquisa e os meios (dados, recursos, treinamento e tempo) necessários para enfrentar a questão posta.

Esse é o seu problema de pesquisa? E daí?

Outro desafio emerge: como ter um bom problema de pesquisa? A rigor, quase qualquer fenômeno ou evento internacional pode ser um tema das Relações Internacionais. Cabe ao pesquisador problematizá-lo como tal. Não se produz ciência no vácuo. Existem debates fundamentes da área. Existem debates que visam refundá-la. Possuímos fenômenos clássicos do campo: guerra, paz, conflito, cooperação, comunidades políticas (ex. Estado), atores (ex. indivíduos ou redes).

Delimitado o aspecto analisável de um tema, cabe ao pesquisador ter um bom problema de pesquisa. Mas como chegar lá? Resposta: perguntando bem. Para tal é necessário conhecer o que se quer conhecer. Em outras palavras: ir além das perguntas de ignorância buscando perguntar em conexão à debates, tradições e abordagens. E como isso se converte numa boa pergunta? Como saber que chegamos lá? Simples: quando temos em tela um puzzle.

Um quebra-cabeça intelectual pode ser representado pela seguinte assertiva: a teoria X (Paz Democrática) afirma que o que causa ou explica Y (Paz) é X1, X2, Xn (Democracia, Participação, Contestação, Accountability, etc..). Entretanto, o pesquisador verifica que tal teoria não consegue explicar um caso ou um conjunto de casos (ex. Guerra entre Estados Unidos e Reino Unido, em 1812) que são manifestação do fenômeno presumidamente explicado pela Teoria A (Paz Democrática). Em síntese, a Teoria afirma que quando X1, X2, Xn teremos Y (apresentado de forma determinista ou probabilística), mas quando o investigador observa o caso (Guerra de 1820), a explicação ancorada na teoria não responde de forma satisfatória à manifestação (evento) do fenômeno. Ou seja, a teoria “falha” em explicar. O que seria o pesadelo do teórico, para o pesquisador é o paraíso. Eureka, temos um puzzle! E como chegamos a um puzzle?

  1. Amplo e profundo conhecimento das principais teorias que tratam do fenômeno a ser explicado;
  2. Classificação das principais vertentes explicativas (teóricas e empíricas);
  3. Revisão da literatura em termos de a) lógica de explicação e b) variáveis independentes e intervenientes (ou condições);
  4. Profundo conhecimento dos casos (eventos ou manifestações do fenômeno) de forma a poder verificar o contraste entre Teorias/Abordagens e Realidade.

Diante de um problema sobre o qual as teorias disponíveis disputam a resolução de um puzzle, se faz necessário imaginar distintos caminhos para solucionar o quebra-cabeças. É a imaginação orientada por teorias, contextualizada no objeto e disciplinada por métodos e técnicas que romperá o véu da ignorância realizando a humilde missão de dar um sentido explicativo a uma realidade internacional infinita, complexa e caótica.

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* Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente é professor Adjunto do Departamento de Relações Internacionais da UFPB. Líder do Grupo de Pesquisa em Estudos Estratégicos e Segurança Internacional (GEESI/UFPB /CNPq). Membro da Associação Brasileira de Estudos de Defesa.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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