Publicação mensal sobre Relações Internacionais

Página inicial do VOX MAGISTER

Em defesa do uso do Método Histórico-Comparativo (MHC)*

Por Júlio César Cossio Rodriguez**

rodriguez1

A postagem da colega Cinthya Campos, inaugurando este blog, mostrou bem quais são os desafios prementes à área de Relações Internacionais (RI) no Brasil. Dentre eles a autora elencou o necessário aumento do uso rigoroso de metodologias qualitativas pela área. Esta afirmação vai na mesma direção do que apontou Gláucio Soares, em 2005, sobre a Ciência Política (CP), quando afirmava ser fundamental aumentar o uso rigoroso de metodologias qualitativas. A área de RI passa por problemas semelhantes, todavia, os efeitos notados por ele sobre a CP se aplicam com mais força à produção nacional em RI. Ou seja, não há grande preocupação metodológica e, portanto, não houve o aprimoramento das metodologias qualitativas mais recorrentes. Desta forma, como é necessário que os acadêmicos da área se dediquem aos estudos sobre metodologia, neste breve texto defendo o uso do Método Histórico-Comparado (MHC) pela academia nacional de RI. Como motivo acessório para tal cita-se que as RI do Brasil são fortemente influenciadas pela história e pela ciência política.

Este método tem suas origens nos estudos dos principais cientistas sociais do século XIX (Karl Marx, John Stuart Mill, Alexis Tocqueville, Max Weber e March Bloch) e ele foi aprofundado pela sociologia histórica do século XX, principalmente por Barrington Moore Jr, Theda Skocpol e Charles Tilly. Atualmente passa por revigoramento dentro das ciências sociais norte-americanas a partir dos trabalhos de James Mahoney, David Collier, Charles Ragin entre outros. As características centrais deste método são o controle da história para a busca de evidências causais e o uso das comparações para a hierarquização das condições encontradas ao longo do percurso histórico investigado.

De forma sucinta pode-se elencar quatro particularidades da aplicação do MHC. A primeira delas diz respeito aos tipos de estudos que podem ser feitos com o uso deste método, isto é, eles devem se relacionar à busca de causas de determinados processos, em geral, políticos. A segunda diz respeito a como serão buscadas tais causalidades, isto é, a saber como um fator pode ter causado determinado resultado. Tal investigação pode recorrer ao instrumento do process tracing acerca dos traços e/ou evidências históricas sobre as causas e seus respectivos mecanismos causais. Em terceiro lugar, após a identificação e definição das principais hipóteses causais e de encontradas as evidências que sustentem tais mecanismos causais, podem ser aplicados os testes de hipóteses relativos ao mapeamento de processos. Por fim, definem-se e hierarquizam-se as causas e condições causais segundo as novas denominações propostas pelos trabalhos recentes sobre este método. Esta última fase consiste em definir quais são as condições necessárias, mas não suficientes; as condições suficientes, mas não necessárias; as condições necessárias e suficientes; as condições INUS (que são parte insuficiente, mas necessária, de uma condição que é ela mesma não necessária, mas suficiente para o resultado) e as condições SUIN (que é uma parte suficiente, mas não -necessária, de um fator que é insuficiente, mas necessário, para um resultado). Após estas fases recomenda-se a elaboração da representação gráfica destas condições utilizando para isto a matemática, em especial a teoria dos conjuntos e os diagramas de Venn.

Para exemplificar a aplicação do método recorrerei à Política Externa brasileira (PEB). As perguntas principais sobre tal política, na maioria das vezes, estão relacionadas com causalidades específicas. Por exemplo, quais são as causas das mudanças na PEB durante o regime militar? As respostas a este questionamento relacionam-se à análise histórica do período em busca de evidências que podem explicar tais mudanças políticas. Sobre a primeira pergunta, pode-se elencar as mudanças na PEB entre os primeiros anos do regime militar (Castelo Branco e Costa e Silva) e a diplomacia do início dos anos 1970 (Médici e Geisel), que passou de um alinhamento mais nítido aos EUA para o pragmatismo, que pode ser lido como um relativo distanciamento daquele país. Mas quais são as causas destas mudanças? Seriam elas estruturais ou internas? Considerando uma leitura realista, tem-se que ao nível sistêmico pode-se considerar que ocorre no final dos anos 1960 a equilibração de poder entre EUA e URSS, principalmente em âmbito militar, em específico no poder nuclear. Já ao nível interno a grande diferença reside no aumento do crescimento econômico (Milagre Econômico), o que implicou no incremento do poder material do país. Mas qual destes elementos tem mais peso e pode ser fator causal de mudanças na PEB? As respostas vão depender da argumentação e das teorias às quais as hipóteses causais se relacionam. Assim, uma análise realista dos fatores apontaria que as alterações na distribuição de poder ao nível sistêmico, em direção a um equilíbrio de poder, podem ser interpretadas como condições necessárias para as mudanças na PEB, todavia sem o crescimento no poder material do Brasil as mudanças nesta política podem não ocorrer. Assim, por estas últimas condições serem menos frequentes e mais próximas ao caso de estudo, o incremento de poder do Brasil pode ser considerado uma parte de uma condição necessária, que em conjunto com outros elementos como as preferências do presidente, das elites econômicas e políticas nacionais e das elites do Itamaraty são suficientes para explicar as mudanças na PEB, logo são INUS desta.

O exemplo acima serve para demonstrar, de forma breve, como pode ser a aplicação do MHC. Tal uso pode aumentar a clareza na identificação dos fatores causais e das hipóteses de trabalho. Logo, o aumento da inteligibilidade dos fatores causais e a compreensão aprofundada das condicionantes de processos políticos são os objetivos do MHC, logo, os estudos tradicionais das RI no Brasil só têm a ganhar com o uso rigoroso desta metodologia. Além disso, pode dotar esta área do Brasil de uma necessária identidade metodológica. Na próxima postagem tratarei de breves considerações sobre os testes de hipóteses relacionados ao mapeamento de processos.

———-

* Esta coluna está relacionada aos esforços do autor em conjunto com o Prof. Octavio Amorim Neto (FGV-Rio) para demonstrar que a aplicação do MHC pode trazer muitos ganhos metodológicos para a área de RI.

** Professor do Programa de Pós-Graduação em Sociologia/Ciências Sociais e de Política Internacional Contemporânea na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Doutor em Ciência Política (Universidade de Lisboa), Mestre em Ciência Política (UFRGS) e Bacharel em Relações Internacionais (UFRGS). Pesquisador Associado do Centro Internacional de Estudos sobre Governo (CEGOV/UFRGS).

——————————————————————————————————————————————————–

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

2 Comments

  • […] A postagem anterior no blog fez a defesa inicial da aplicação nas RI do Método Histórico-Comparativo (MHC). Para isto, tratou de demonstrar quais são os passos iniciais para a sua aplicação. Nesta postagem aborda-se um dos instrumentos principais do MHC: o mapeamento de processos ou process tracing. Este serve, segundo David Collier (2011), para identificar a partir de rastros de evidências, principalmente históricas, uma sequência lógica de eventos, suas causas e quais são os mecanismos que ligam as causas encontradas aos resultados. Portanto, é um instrumento muito utilizado por acadêmicos que sustentam seus argumentos em evidências históricas. Outro aspecto central deste instrumento é que ele permite o teste das hipóteses causais do trabalho. Na literatura especializada sobre o MHC e sobre o mapeamento de processos, figuram quatro testes principais, aos quais tais evidências devem ser submetidas[1]. Apenas após estes testes é que se avaliam os seus efeitos sobre as hipóteses causais. […]

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *