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Guerra irregular, terrorismo e segurança internacional

Por Elton Gomes dos Reis*

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A França viveu nesta sexta-feira, 13 de novembro, um dos dias mais violentos de sua História. Uma série de ataques cometidos por extremistas islâmicos, portando armas automáticas ceifaram a vida de mais de 150 civis desarmados. A operação de libertação dos reféns na casa de espetáculos não impediu o assassinato de 118 cidadãos franceses e de outras nacionalidades que visitavam o país. O governo Hollande fechou as fronteiras e declarou estado de emergência. Situações como essa chocam profundamente a opinião pública internacional e são constantemente apresentadas como fruto de um novo tipo de violência que se estabeleceu depois dos atentados de 11 de setembro. Contudo, um exame mais atento revela que a tragédia na cidade luz é mais um episódio da longa trajetória da guerra irregular e do terrorismo. Os atentados põe em evidência um fenômeno de milhares de anos que, em período recente, assumiu contornos diferenciados mediante a expansão das operações suicidas do jihadismo.

A Guerra Irregular é uma das mais ancestrais de todas as táticas de enfrentamento. o emprego de recursos estratégicos que visam promover o desgaste do adversário mediante o emprego de ações irregulares como emboscadas, ações de guerrilha, sabotagem, subversão, e atos de terror dirigidos contra a população civil com o propósito de desgastar o governo inimigo podem ser encontrados já na Antiguidade Clássica, por exemplo, no incêndio dos campos filisteus perpetrado por Sansão à frente de combatentes irregulares judeus, ou nos raids de rebeldes que se insurgiam contra a ocupação romana comandados por chefes bárbaros como Armínio e Carataco.

Ao longo da sucessão histórica a Guerra Assimétrica foi o meio por excelência utilizado por beligerantes de várias tendências que não dispunham de meios convencionais suficientemente poderosos para atingir seus propósitos políticos e ideológicos. Século XX assistiu atônito a ascensão em grande escala desse fenômeno. A Revolta Árabe (1916-1918) que imortalizou a figura de T.E Lawrence (Lawrence da Árabia) foi o primeiro passo de uma longa e sangrenta jornada de violência assimétrica praticada com objetivos políticos aos quais rapidamente se juntaram fatores religiosos, étnicos e culturais diversos em uma combinação explosiva que custou a vida de milhões de pessoas nos quatro cantos da terra. A guerra assimétrica se disseminou principalmente após a Segunda Guerra Mundial com o crescimento das ações de insurgência e dos atentados dirigidos contra alvos políticos e contra os cidadãos ordinários levadas a termo pelos movimentos de libertação colonial e por grupos separatistas a partir dos anos 1950 e 1960.

A Revolução Chinesa, o terrorismo independentista do IRA, os atentados dos separatistas bascos do ETA, a Guerra da Argélia, a Revolução Cubana, as Guerras da Indochina e do Vietnã, a resistência dos mujahidins contra as forças soviéticas no Afeganistão, o infindável conflito árabe-israelense, e a recente escalada do neoterrorismo islâmico dos grupos extremistas do Oriente Médio como a Al Qaeda, o Boko Haram e o ISIS ocorreram em construções contextuais e em intervalos temporais bastante distintos. Porém, esses eventos tem uma grande característica em comum: o emprego do terror como arma. Apesar de contemporaneamente aparecer quase sempre associado a forças paraestatais ou infraestatais que lutam contra o poder público, a origem do terrorismo está diretamente ligada a violência política levada a termo pelo próprio Estado, ou pelo seu grupo dirigente.

A palavra “terror” remota aos brutais métodos empregados pelo radicalismo jacobino de Robespierre durante a segunda fase da Revolução Francesa. Historicamente muitos soberanos e ditadores também empregaram “políticas de terror” contra dissidentes e opositores internos, ou mesmo contra seu próprio povo afim de preservar o poder e dissuadir quem deseja se se contrapor ao regime. A crueldade inaudita de Vlad Tepes na Romênia, o despotismo hediondo dos Czares, a perseguição implacável e os genocídios praticados pelos regimes totalitários europeus (Nazismo e Stalinismo) e a política de extermínio do Khmer Vermelho de Pol Pot no Camboja são apenas alguns exemplos do que a literatura chama de terrorismo de Estado.

Hoje, entretanto, esse termo aparece associado a um sem número de atividades desencadeadas por organizações de caráter clandestino e,ou paramilitar que utilizam o terrorismo, ou a ameaça do emprego da violência contra alvos não combatentes como recurso operacional para promover uma causa política, religiosa, ou ideológica. Desde o fim da Guerra Fria, o terrorismo tem se tornado cada vez mais frequente como estratégia de grupos armados irregulares. Analistas políticos e especialistas em segurança militares e civis entendem que essa forma de violência deverá se tornar mais comum do que os meios de tradicionais de violência organizada. Um dos principais motivos para que os grupos armados se valham dessa doutrina tática consiste nas muitas vantagens associadas ao seu emprego. O terrorismo necessita de poucos agentes, possuí um custo muito baixo se comparado às operações de guerra convencional, torna sumamente difícil a defesa e a reação por parte dos elementos regulares do Estado (Forças Armadas, agências de segurança e polícias) e causa um grande impacto psicológico, além de danos físicos e prejuízo material elevados a um alvo específico, mobilizando para tanto uma quantidade relativamente pequena de recursos.

O neoterrorismo islâmico é fruto de uma grande conjunção de fatores que abrangem desde o unilateralismo de Washington e o acumulado histórico da ação das grandes potências no Médio Oriente até as complexas e imbricadas relações entre os muitos grupos que compõe ao cenário geopolítico dos países dessa região extremamente volátil. Esse quadro foi majorado pela redefinição de tempo e espaço propiciada pelas novas tecnologias de comunicação que deram meios de coordenação eficazes e baratos aos combatentes irregulares, e visibilidade mundial instantânea aos seus atos terroristas. Desde o ataque as Torres Gêmeas em 2001, a informação em tempo real tem potencializando a repercussão dos atentados e incrementando o clima de ameaça que se liga invariavelmente ao emprego terror como estratégia de combate não convencional.

O que ocorreu na França foi um típico ato de terror. Ao mesmo tempo foi um novo movimento dos confrontos atuais. Atingiu um Estado aliado dos EUA; buscou afetar os seus tomadores de decisão, chocar a opinião pública, gerar um clima de insegurança e medo generalizados. Não foi perpetrado por rebeldes contrários a um governo, ou por freedom fighters lutando pela independência e sim por radicais dispostos a matar e a morrer por uma utopia teocrática. Os extremistas evocam valores tradicionais do Islã, usando armas e equipamentos modernos. Nos brutais ataques em Paris é possível perceber a nova e a velha dimensão da guerra assimétrica. Se de um lado os métodos são parecidos com aqueles empregados há séculos atrás, os meios logísticos e técnicos de uma sociedade pós-industrial colocam um desafio ainda maior para o monopólio da violência do Estado diante dos enfrentamentos de quarta geração.

As motivações religiosas dos radicais aparecem em meio ao atoleiro político no qual se converteu a ocupação do Iraque e do Afeganistão por tropas americanas e diante de uma “Primavera Árabe” que degenerou em crise. Depois do otimismo gerado pela derrocada do regime da Tunísia e pelo sucesso da intervenção armada na Líbia, a Primavera Árabe abriu caminho para chegada da irmandade muçulmana ao poder e depois para a instauração de uma ditadura militar no Egito, e contribuiu para uma nova incursão de Israel em Gaza que deu mais munição ideológica aos jihadistas mundo afora. Os novos ataques em solo francês poderão levar a uma cruzada contra o ISIS comandada pelos EUA que, para ser bem sucedida, demanda um emprego combinado de táticas de inteligência, contra insurgência e de guerra convencional. Isso sem mencionar a presença militar russa na região. O futuro segue profundamente incerto e cada vez mais ameaçador!

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* Bacharel em Ciências Sociais (UFPE), Mestre e Doutor em Ciência Política (UFPE). Atualmente é professor da Faculdade Damas da Instrução Cristã e da Faculdade Estácio do Recife. Tem experiência na área de Ciência Política, com ênfase em Política internacional, atuando principalmente nos seguintes temas: análise de política externa, política externa brasileira, integração regional e organizações políticas internacionais.

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