Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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E agora, Reino Unido?*

Por Marcelo de Almeida Medeiros**

David Cameron on a visit to the Gulf States

O Partido Conservador venceu. Contrariando a maior parte das expectativas, David Cameron terá maioria em Westminster – 331 assentos – e governará sem a necessidade de estabelecer coalizão com alguma outra agremiação.

E agora Sua Majestade? E agora Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte?

Algumas considerações podem ser efetuadas a fim de se compreender o porquê de tal resultado e quais as suas possíveis consequências políticas internas e externas.

Inicialmente, é importante assinalar que o Reino é dividido em 650 distritos (constituencies) e adota o sistema majoritário uninominal com um só turno. Ora, o mecanismo first-past-the-post, que caracteriza este tipo de escrutínio e é marcado pela lógica de quem ganha leva tudo, tende a favorecer os grandes partidos e, no caso britânico, o bipartidarismo, a polarização entre o Labour e o Tory.

Todavia, nestas eleições, mesmo se a maioria dos votos ainda foi drenada por estes dois partidos, dois fenômenos atípicos ocorreram: (i) o Partido Nacionalista Escocês (SNP) obteve uma votação expressiva, passando de 6 a 56 cadeiras e transformando-se na terceira força política do novo hemiciclo. Por quê? Uma hipótese plausível é que mesmo tendo perdido o referendum da independência da Escócia no ano passado, o SNP projetou-se nacionalmente e estaiou-se em um discurso cujos valores se postaram mais à esquerda do que aqueles propalados pelo Labour. As cifras mostram que, na verdade, o partido de Ed Miliband perdeu 40 cadeiras na Escócia em relação ao pleito de 2010, tendo eleito apenas 1 deputado; (ii) os Liberais Democratas (LD) perderam surpreendentes 49 assentos, despencando da trinca principal de partidos e perdendo o vigor obtido nas últimas eleições legislativas. Por quê? Um possível argumento é o fato dos seus eleitores terem se sentido traídos em razão da coalizão formada com os Tories. Para eles, tal coalizão, na verdade, significou compactuar com a visão eurocética e a política macroeconômica por demais austera de Downing Street. O que parece se constituir como uma cumplicidade nefasta e contrária aos princípios que, teoricamente, guiam aqueles que votam nos LD.

Internamente, então, configura-se uma opção pela manutenção de uma política essencialmente fundada no laissez-faire, a qual, de forma inequívoca, favorece a liberdade em detrimento da igualdade, a economia em detrimento do social. A maioria dos cidadãos britânicos consideram que, comparativamente aos seus vizinhos, a gestão conservadora acertou em muitos pontos. Isto não significa que não haja insatisfação em relação a inúmeros problemas, tais quais imigração ou saúde. Mas há o entendimento de que a situação poderia, a longo prazo, ainda ser pior sob a égide de um governo mais à esquerda.

Externamente, a vitória dos Tories poderá ter grande impacto na União Europeia (UE). Como é sabido, o Reino Unido é um dos 28 Estados que a compõem. Na verdade, ao lado da Alemanha e da França, um dos principais. Considerado um dos Estados mais eurocéticos do grupo – por exemplo, não faz, por opção, parte da zona do Euro e do espaço Schengen – o Reino Unido poderá, com a permanência dos Tories no governo deixar a UE. De fato, uma das promessas de campanha de David Cameron foi de convocar um referendum, no final de 2017, para determinar se o Reino permanece ou não como membro da União Europeia. Mesmo se o tal referendum deverá acontecer apenas após negociações entre Londres e Bruxelas, o fantasma de uma UE sem o Reino Unido está afligindo boa parte dos tomadores de decisão do Velho Continente. Principalmente aqueles de Berlim e Paris. Sem embargo, caso ocorra uma saída do Reino Unido, o projeto político da União Europeia de se tornar um ator cada vez mais relevante na cena internacional ficará deveras comprometido.

Em suma, o atual resultado, parece questionar o bipartidarismo tradicional e o modo de escrutínio: ascensão vertiginosa do SNP, queda abissal dos Liberais Democratas e o Partido de Independência do Reino Unido (UKIP) reunindo 12,6% dos votos (o SNP obteve apenas 4,7%) mas obtendo apenas uma cadeira em Westminster. Por outro lado este mesmo resultado confirma a escolha por menos intervenção estatal e pela tradicional reserva insular no que concerne os negócios com Bruxelas. Neste ano de 2015, em que a Magna Carta completa 800 anos, os britânicos, mais uma vez, se mostram aversos à incerteza e apegados ao exercício pleno da soberania de Sua Majestade. God save the Queen!

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* Este texto foi publicado originalmente no Jornal do Commercio, Recife – PE, p. 8 – 8, 15 maio 2015.

** Doutor em Ciência Política (Institut d’Etudes Politiques de Grenoble) e Livre-Docente em Ciência Política pelo Institut d’Etudes Politiques de Paris – Sciences Po. É Professor Associado de Ciência Política do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Bolsista de Produtividade em Pesquisa – Nível 1D do CNPq, Líder do Núcleo de Estudos de Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI/UFPE), Co-Coordenador  da Área Temática Política Internacional da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e Co-Coordenador do Grupo de Trabalho Política Internacional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS).

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