Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Segurança alimentar, meio ambiente e cooperação internacional*

Por Andrea Steiner**

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Quando os estudos sobre segurança internacional começaram a se intensificar em meados do século XX, utilizava-se um conceito tradicional de segurança, centrado no Estado e com ênfase na soberania e na integridade territorial. Ou seja, as maiores ameaças eram tidas como externas aos países.

Tal conceito começou a ser questionado na década de 1980, adequando-se às mudanças no cenário internacional. Pois com a maior interdependência entre os Estados e a crescente complexidade dos problemas globais, passou a se estudar diferentes “seguranças”, como a segurança ambiental, a econômica, a social e a alimentar (além da militar, é claro).

Neste contexto e com o aumento populacional, maior atenção passou a ser dada a questões relacionadas à segurança alimentar planetária. Porém, o tema nem sempre é tratado em toda sua complexidade, e frequentemente é ignorada sua relação com outras problemáticas, como a segurança ambiental.

Obviamente o meio ambiente é a fonte de nossa alimentação, fornecendo vegetais e animais para nosso consumo, bem como os serviços ambientais necessários à produção dos alimentos. Outros pontos são menos óbvios, como a variabilidade genética disponível para prover, naturalmente, espécies mais resistentes a pragas e possibilitar o aumento da performance dos cultivares. Infelizmente, das cerca de 40.000 espécies utilizadas atualmente na dieta do ser humano, apenas 20 delas derivam 80% do que ingerimos mundialmente.

Outro problema é o da desconexão, ou de uma falsa percepção de desconexão. Fritjof Capra já dizia na década de 1970 que a crise ambiental é, na verdade, uma crise de percepção. Afinal, apesar de estarmos intrinsecamente e permanentemente ligados ao meio, há uma crescente percepção de separação. No campo alimentar, isso se traduz em uma população com cada vez menos conhecimento acerca de onde vêm, como são produzidos e o que contêm os alimentos ingeridos corriqueiramente. Tal desconhecimento é perigoso não apenas para a saúde individual, mas também para a saúde do meio ambiente como um todo.

Um exemplo é o das excitoxinas, substâncias contidas em certos adoçantes artificiais e em realçadores de sabor como o glutamato monossódico, que podem causar danos ao sistema nervoso, entre outros problemas graves. Porém, a maioria da população brasileira desconhece o risco que corre, em longo prazo, ao ingerir tais substâncias (e as utilizam, inclusive, na alimentação dos filhos pequenos). Em um nível mais macro, poderíamos citar os danos ambientais causados pela produção em massa de alimentos repletos de tais substâncias artificiais, como a poluição das águas devido aos resíduos destas substâncias contidos nos dejetos humanos, por exemplo.

Felizmente, além do crescente número de problemas ambientais, nas últimas décadas pudemos observar um aumento no número de acordos internacionais que lidam com essa questão e suas interconexões. Considerando a interface entre saúde ambiental e alimentar, podemos citar a Convenção sobre Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs). Também chamada de Convenção de Estocolmo, este tratado entrou em vigor em 2004 a fim de tentar eliminar a produção, importação e exportação dos POPs, que acabam por contaminar, por exemplo, aquele que deveria ser o alimento primordial do ser humano dos seus primeiros anos: o leite materno.

Não podemos esquecer, ainda, que a conscientização quanto às questões de segurança alimentar e ambiental passa também por um esforço dos movimentos sociais. Além de promover a sensibilização dos cidadãos em geral, as organizações da sociedade civil vêm se unindo para pressionar os tomadores de decisão nacionais e internacionais a tomar as medidas cabíveis. Porém, é preciso somar esforços em todos os níveis, do local ao global, a fim de começar a solucionar uma situação cada vez mais incontornável.

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* Uma versão deste texto foi publicada anteriormente no informativo do Fórum Brasileiro de ONGs (FBOMS).

** Bióloga (UFRPE), Mestre em Ciências Biológicas, Zoologia (UFPB), Doutora em Ciência Política (UFPE). Atualmente é professora adjunta do Departamento de Ciência Política da UFPE, onde realiza pesquisas na área de política ambiental internacional.

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As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores.

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