Publicação mensal sobre Relações Internacionais

Página inicial do VOX MAGISTER

Os desafios da pesquisa em Relações Internacionais

Por Cinthia Campos*

campos1

Qual o objeto de estudo das Relações Internacionais (RI)? Uma resposta automática seria “o sistema internacional”. Não estaria completamente errada, porém não abarcaria toda a dinâmica inerente à área. Um exemplo claro desta contradição é a Análise de Política Externa, dedicada ao contexto doméstico na formação da agenda internacional. Dessa forma, afirmar que o objeto da disciplina é apenas o que acontece no âmbito internacional, ou seja o “lá fora”, é limitar a sua capacidade analítica.

Apesar da ausência de consenso entre as abordagens clássicas como o Realismo e o Liberalismo, em geral, as RI contemporâneas dedicam-se a compreender a interação presente entre as esferas nacional e internacional. Portanto, as diferenças de análise estabelecem-se principalmente por sua direção: vertical, transbordamento do plano doméstico para o externo, ou o sistema internacional impactando em um dado Estado-nação; ou ainda horizontal, quando se descarta parcialmente a esfera nacional e concentra-se na relação interestatal.

Dito isto, portanto, qual o método das RI? Marcada pela sua interdisciplinaridade, as RI sofrem com um problema de identidade ao passo que buscam por uma maior autonomia entre as demais ciências sociais. No principal portal de acesso livre a periódicos, o Scielo, uma rápida busca pelo tema da metodologia nas publicações da área antecipa o maior desafio da disciplina, sobretudo para os pesquisadores brasileiros: a deficiência de uma discussão aprofundada sobre metodologia.

Tradicionalmente influenciada por disciplinas como História e Direito, bem como em virtude da própria jovialidade da área, as RI se enquadram em uma zona cinzenta entre a Ciência Política e as demais ciências sociais. A necessidade em se discutir não apenas suas definições conceituais, mas testar a capacidade de aplicar técnicas de pesquisa mais robustas é parte central do progresso de qualquer ciência.

Um primeiro caminho inevitável é a conexão entre teoria e empiria. Um dos grandes desafios para as RI tem sido identificar mecanismos de mensuração dos seus principais conceitos para então estabelecer a melhor estratégia de pesquisa. Um exemplo clássico desta dificuldade é definir a variável “poder”. Diversas abordagens buscaram ampliar o pressuposto realista que o fator militar é um componente necessário e suficiente para estimar poder.

O neorrealismo considerou a economia como parte integrante das capacidades do Estado-nação. Já o realismo ofensivo afirma que poder econômico só tem utilidade quando é revertido em poder militar. Por outro lado, teóricos liberais da interdependência complexa afirmam que não se pode estabelecer uma hierarquia de características, em que há Estados que são mais sensíveis e vulneráveis em determinadas matérias e em outras não. Em suma, aquele que conseguir ser menos vulnerável em comparação aos demais, poderia ser então considerado um Estado-nação poderoso.

Com o avanço tecnológico e a possibilidade de construir banco de dados cada vez mais sofisticados, diversas tentativas de estabelecer parâmetros para estimar poder tem sido aperfeiçoadas. The Correlates of War Project (COW)[1] é o mais conhecido banco de dados disponível para mensurar uma série de questões internacionais e é organizado desde 1973 pelo Prof. David Singer. O projeto se destina a ser um repositório de dados enviados por outros pesquisadores e universidades. O COW define “poder” a partir de um indicador que estima as Capacidades Materiais Nacionais, que reúne uma série de indicadores secundários, a exemplo de população, gastos militares, efetivo militar, consumo, produção de energia e aço, dentre outras.

O grande problema aqui é a necessidade de combinar este indicador de capacidade nacional com outras características que também são passíveis de influenciar o sistema de crenças ao qual os atores internacionais estão expostos. Por exemplo, como verificar empiricamente quais Estados fazem mais uso do soft power do que outros? Nesse caso, faz-se necessário identificar quais variáveis podem ser empregadas para construir uma medida de soft power ao passo que esta possa ser aplicada em termos comparativos com um mínimo de precisão empírica.

Para além dos desafios conceituais, e também como consequência das dificuldades deste debate, percebe-se igualmente o uso limitado das diversas técnicas de pesquisa disponíveis para a averiguação empírica. Há uma falsa impressão na área de que em virtude das temáticas envolverem estudos de poucos casos, o método comparativo seria o principal recurso analítico dos internacionalistas. No entanto, há diversas ferramentas possíveis, que se adequam aos mais variados desenhos de pesquisa.

Por exemplo, quando se trata de um estudo de caso único, o pesquisador tanto pode fazer uso de dados quantitativos em uma análise longitudinal, com dados de painel, quanto aplicar uma investigação em profundidade a partir do process tracing. Ao realizar comparações com mais de cinco casos, sejam países ou unidades de análise, em que o objetivo da investigação é considerar variáveis de contexto explicando a presença ou ausência de um determinado fator nos casos investigados, a ferramenta mais adequada seria o qualitative comparative analysis (QCA). E mais, é possível plenamente combinar diversas técnicas em uma mesma pesquisa, ou seja, aplicar o multimétodo.

No entanto, esse esforço metodológico só é útil se o pesquisador estiver comprometido em fornecer uma explicação, mesmo que contingencial, para os fenômenos de interesse. Estudos histórico-descritivos são bem-vindos, principalmente sobre temas em que ainda pouco se sabe sobre as dinâmicas que o permeiam. Todavia, com a multiplicação de graduações e pós-graduações na área e o grande volume de pesquisadores que se forma todos os anos, questiona-se: há de fato algum fenômeno nunca antes estudado sobre o qual pouco ou nada se sabe ainda?

———-

* Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco. Bolsista do Programa Nacional de Pós-doutorado/CAPES; membro do Núcleo de Política Comparada e Relações Internacionais/ UFPE; do Preator/UFPE e do Centro de Estudos Internacionais/UFS. Este texto faz parte de artigo a ser publicado na próxima edição da Política Hoje/UFPE.

[1] O repositório possui igualmente dados sobre formação de alianças, atuação diplomática, de comércio bilateral, dentre outros (http://www.correlatesofwar.org/ ). Há ainda diversos outros índices que buscam medir poder, dentre eles: Global Firepower Index (http://www.globalfirepower.com/), que se concentra em uma série de indicadores militares; National Power Index (http://www.nationalpower.info/), que insere variáveis macroeconômicas também.

——————————————————————————————————————————————————–

As opiniões aqui expressas são de responsabilidade exclusiva de seu/sua autor e, portanto, não representam a opinião do Vox Magister nem de todos os seus colaboradores

3 Comments

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *