Publicação mensal sobre Relações Internacionais

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Month: November 2015

Cratologia: o poder como enigma, meio e fim das Relações Internacionais

Cratologia: o poder como enigma, meio e fim das Relações Internacionais

Thales Castro
Por Thales Castro* Poder é um conceito multifacetado e em constante mutação que permite a um determinado Estado ter seus interesses sobrepostos aos demais Estados, ou quaisquer outros atores internacionais, pelo uso de ameaça (poder potencial) ou mesmo de efetivação de conflitos armados e demais instrumentos coercitivos (poder atual). Poder é energia cinética de relevância nas engrenagens internacionais; é fonte de discórdia e é nascedouro de conquistas; é, ademais, essência dinâmica do estudo da política internacional. Contudo, poder, isoladamente, não é criado em um vácuo nem possui senhorios perpétuos para seu domínio. Dentre as muitas definições de poder, optou-se aqui pela definição de poder mais voltada para o cenário político-decisório internacional na obra de Rosati: “a capacid
Montando o puzzle para a pesquisa em Relações Internacionais.

Montando o puzzle para a pesquisa em Relações Internacionais.

Augusto W. M. Teixeira Júnior
Por Augusto Teixeira Jr.* Se o "fazer" científico é um processo laborioso, produção de uma forma de aprender diferenciada de outras formas do saber, ciência não se faz sem método. Desta forma, se estabelece um aparente estranhamento: como produzir conhecimento com métodos e abordagens qualitativas, mas com rigor metodológico? Além do debate sobre qual o objeto das RI, discutido por Cinthia Campos em “Os desafios da pesquisa em Relações Internacionais”, surge outro desafio para além da delimitação do campo: como apreender a realidade internacional? No que seria o nosso “calcanhar metodológico”, verifica-se às vezes a ausência de estratégias robustas de pesquisa, boa relação entre o que se quer saber e como saber. Esta deficiência, ligada ao low profile da metodologia em detrimento da te
Desafios e dilemas do enfrentamento ao Estado Islâmico

Desafios e dilemas do enfrentamento ao Estado Islâmico

Antonio Henrique Lucena Silva
Por Antonio Henrique Lucena Silva* Os últimos atentados terroristas perpetrados pelo grupo autodenominado “Estado Islâmico” em Paris, França, no dia 13 de novembro deixou 130 mortos e outra centena de feridos. A materialização desse ataque levantou dúvidas sobre a eficácia do setor de inteligência francês que não conseguiu prever os golpes desferidos contra a casa de shows Bataclan, o Stade de France e outros pontos da cidade. O massacre dos 12 cartunistas do semanário Charlie Hebdo, no dia 7 de janeiro, realizado pelos irmãos Said e Cherif Kouachi, e outra investida, no mesmo dia, ao um supermercado Kosher da comunidade judaica também foram reivindicados pelo grupo extremista. A organização terrorista assumiu a autoria do atentado a bomba que derrubou o avião russo na península do Sinai.
Qual a relevância da União Europeia?

Qual a relevância da União Europeia?

Rodrigo Barros de Albuquerque
Por Rodrigo Barros de Albuquerque* Os Atentados de Paris de 2015 realizados pelo Estado Islâmico provocaram de imediato um recuo às liberdades de circulação ao provocar o fechamento das fronteiras da França e ao estabelecimento de medidas mais rigorosas de segurança nos aeroportos franceses já na manhã seguinte. Nos dias que se seguiram aos ataques, explodiram as notícias sobre a reação do governo com a caçada aos terroristas que não morreram nos ataques, em especial àquele que liderou o planejamento dos atentados, bem como notícias sobre outros ataques terroristas realizados no Líbano, na Nigéria e, agora, no Mali. A França já está circulando texto provisório para uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas na qual convocará os países membros do Conselho a tomarem medidas ma
Em defesa do uso do Método Histórico-Comparativo (MHC)*

Em defesa do uso do Método Histórico-Comparativo (MHC)*

Júlio César Cossio Rodriguez
Por Júlio César Cossio Rodriguez** A postagem da colega Cinthya Campos, inaugurando este blog, mostrou bem quais são os desafios prementes à área de Relações Internacionais (RI) no Brasil. Dentre eles a autora elencou o necessário aumento do uso rigoroso de metodologias qualitativas pela área. Esta afirmação vai na mesma direção do que apontou Gláucio Soares, em 2005, sobre a Ciência Política (CP), quando afirmava ser fundamental aumentar o uso rigoroso de metodologias qualitativas. A área de RI passa por problemas semelhantes, todavia, os efeitos notados por ele sobre a CP se aplicam com mais força à produção nacional em RI. Ou seja, não há grande preocupação metodológica e, portanto, não houve o aprimoramento das metodologias qualitativas mais recorrentes. Desta forma, como é necessár
Guerra irregular, terrorismo  e segurança internacional

Guerra irregular, terrorismo e segurança internacional

Elton Gomes dos Reis
Por Elton Gomes dos Reis* A França viveu nesta sexta-feira, 13 de novembro, um dos dias mais violentos de sua História. Uma série de ataques cometidos por extremistas islâmicos, portando armas automáticas ceifaram a vida de mais de 150 civis desarmados. A operação de libertação dos reféns na casa de espetáculos não impediu o assassinato de 118 cidadãos franceses e de outras nacionalidades que visitavam o país. O governo Hollande fechou as fronteiras e declarou estado de emergência. Situações como essa chocam profundamente a opinião pública internacional e são constantemente apresentadas como fruto de um novo tipo de violência que se estabeleceu depois dos atentados de 11 de setembro. Contudo, um exame mais atento revela que a tragédia na cidade luz é mais um episódio da longa trajetória
E agora, Reino Unido?*

E agora, Reino Unido?*

Marcelo de Almeida Medeiros
Por Marcelo de Almeida Medeiros** O Partido Conservador venceu. Contrariando a maior parte das expectativas, David Cameron terá maioria em Westminster – 331 assentos - e governará sem a necessidade de estabelecer coalizão com alguma outra agremiação. E agora Sua Majestade? E agora Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte? Algumas considerações podem ser efetuadas a fim de se compreender o porquê de tal resultado e quais as suas possíveis consequências políticas internas e externas. Inicialmente, é importante assinalar que o Reino é dividido em 650 distritos (constituencies) e adota o sistema majoritário uninominal com um só turno. Ora, o mecanismo first-past-the-post, que caracteriza este tipo de escrutínio e é marcado pela lógica de quem ganha leva tudo, tende a favorecer o
How much can an election change a country’s foreign policy? A few lessons from the next four years in Canada

How much can an election change a country’s foreign policy? A few lessons from the next four years in Canada

Jean Daudelin
Por Jean Daudelin* On October 18 in Canada, against all pre-electoral forecasts, Justin Trudeau's Liberal Party convincingly defeated Stephen Harper's Conservatives. Over his nine years in power, Harper had taken Canada into policy directions where the country had rarely ventured. Canada's international and domestic image of a generous blue-helmetted bridge-builder has morphed into that of a body-armoured carbon-spewing tough out to re-fight the Cold War and give muslim fundamentalists what they deserve. Canada's careful fence-sitting in the Middle-East, and its diplomats' hyperactivism in all the clubs, summits and organizations that would invite them, was replaced by a strong alignment with the current Israeli government's rigid policies, and with a quiet disinvestment and sometimes o...
Segurança alimentar, meio ambiente e cooperação internacional*

Segurança alimentar, meio ambiente e cooperação internacional*

Andrea Steiner
Por Andrea Steiner** Quando os estudos sobre segurança internacional começaram a se intensificar em meados do século XX, utilizava-se um conceito tradicional de segurança, centrado no Estado e com ênfase na soberania e na integridade territorial. Ou seja, as maiores ameaças eram tidas como externas aos países. Tal conceito começou a ser questionado na década de 1980, adequando-se às mudanças no cenário internacional. Pois com a maior interdependência entre os Estados e a crescente complexidade dos problemas globais, passou a se estudar diferentes “seguranças”, como a segurança ambiental, a econômica, a social e a alimentar (além da militar, é claro). Neste contexto e com o aumento populacional, maior atenção passou a ser dada a questões relacionadas à segurança alimentar planetária. P
Comércio, integração e questões jurídicas: dificuldades e alternativas

Comércio, integração e questões jurídicas: dificuldades e alternativas

Eugênia Barza
Por Eugênia Barza* Considerando que o comércio internacional tem sido normatizado em acordos multilaterais, é de indagar como tornar tais regras compatíveis com as regras de direito interno. O comércio e a integração requerem análise de questões jurídicas rápidas para serem efetivos, algo que nem sempre ocorre. No que diz respeito ao Brasil, temas de comércio são normatizados em nível interno a partir da competência estabelecida constitucionalmente. Compete à União competência para disciplinamento de questões gerais de comércio, no que as questões específicas irão requerer tratamento legislativo que não poderá ultrapassar a margem do permissivo, mesmo para temas internacionais.[1] (REIS: 2001, 76-90). A dificuldade surge com o conteúdo de determinadas normatizações, quando pretensamen